“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CASO PERDIDO

às vezes esqueço que sou mulher, vivendo aqui no brasil. entro num bar qualquer. peço uma bebida mais forte. bebo num gole só porque esquenta mais rápido. acendo um cigarro. e viajo. tenho diante de mim o mar de ipanema. cresci olhando o mar de ipanema. bebo mais um. talvez fique bêbada. tenho me embebedado rápido ultimamente. machos de merda, encostados no balcão, não tiram os olhos de mim. acham que vão me comer. visto-me assim: jeans surrados, camisetinha regata, tênis sempre sujos. os putos colam os olhos na minha bunda. carinha, uma mulher não é só uma bunda. uma mulher sonha também e gosta de ser amada. foder é uma consequência. filhos da puta, vão se aliviar nos banheiros podres das pensões onde moram, lá no cu da praça mauá. no fim do mês, quando recebem, despejam tudo nas putas.lágrimas começam a correr dos meus olhos. quando eu tinha 15 anos e apareci com um dragão tatuado nas costas, minha mãe, chorando, me disse, Bárbara, você é um caso perdido. eu me tranquei no meu quarto e chorei um pouco. meses antes de me mandarem pra frança, minha mãe achou metade de um baseado e duas camisinhas dentro da minha mochila. chorando de novo, ela tornou a me dizer, Bárbara, você é um caso perdido. só que dessa vez eu não me tranquei no quarto e nem chorei, certa de que eu era mesmo um caso perdido. dois anos depois, quando eu voltei de paris, grávida de um homem vinte anos mais velho, minha mãe teve um ataque e gritava, Bárbara, você é um caso perdido e ainda por cima virou puta. também não me tranquei no quarto e nem chorei. fiquei até orgulhosa em saber que eu era a vergonha da família. quinze dias mais tarde, comecei a passar mal. quando me disseram que meu filho havia morrido dentro de mim, eu chorei muito, queria morrer com ele, e aí então eu mesma disse pra mim: Bárbara, você é um caso perdido. minha avó disse que era castigo de deus. então eu senti nojo de deus, queria que deus morresse. matei deus pela primeira vez. minha irmã mais nova me emprestou seu colo pra eu chorar. e foi daí que eu descobri que nem tudo estava perdido e gritei, Bárbara, você nunca foi um caso perdido. eu tinha dezenove anos. e o mar imenso de ipanema se oferecendo pra mim, como agora.

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Annabárbara Lins,
Rio de Janeiro, Brasil
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