“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

sábado, 22 de maio de 2010

NA MORTE DA MINHA MÃE

Numa tarde de janeiro, entro na unidade de terapia intensiva de um hospital. Minha mãe está quase morta. Entubada. Os olhos já não abrem. Em vão, tento reanimá-la: "Mãe, sou eu."
Os olhos cada vez mais cadavéricos continuam sem brilho. Há um homem ao lado também agonizando, no mesmo final que ela. Peço à enfermeira, uma menina loura e bonita, que me deixe descer um pouco para beber alguma coisa.
A filha do homem, que também agoniza ao lado, desce junto e pede um café. Sabemos que o final dos dois será o mesmo. Só não sabemos o destino, o cemitério Serão caminhos diferentes que o carro fúnebre irá levar
. A menina volta à uti, aperta a mão do pai em agonia. Já não faço o mesmo com a minha mãe. Mas lhe beijo a face quase fria. Está morta. A enfermeira loura me diz que o médico quer falar comigo, porém teme minha reação.
Eu peço a ela que o deixe vir. Desce um moço recém-formado. Sirvo-lhe de pai. É taxativo comigo:
"Eu não posso fazer mais nada. Os rins estão paralisados. Os pulmões parados. Ela vai morrer."
Para o espanto do jovem médico, que assinou o óbito, eu digo:
"Por favor, desligue tudo. E dê a ela uma morte digna."
Ele me responde que não pode fazer isso, mas meia hora depois me liga:
"Sua mãe entrou em óbito."
Claro que fez o que devia fazer. E o fez com sua dignidade ainda de menino.
Saí de volta ao hospital. Olhei minha mãe no necrotério. Pedi que lhe descobrissem a cabeça. Só queria ver o rosto. Ainda era belo. Quando lhe veio o caixão, pedi apenas que lhe quebrassem os ossos. O corpo estava muito inchado. Não podiam fazer. Trocaram o caixão. Voltei pra casa. Quando fui ao velório, chorei um pouco escondido. E percebi,pela primeira vez.  Percebi, que já tinha cinquenta e três anos. Era um homem feito.

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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