teu olho nu
ilude o poema
iludes as palavras
: estrelas presas
na lente do telescópio
que não tens
navegas
por turbulentos mares de vírgulas
exclamações te ufanam
interrogações te protegem
como um exército
armado de dúvidas brancas
que importa a hora
no relógio
do antigo mosteiro
se dentro deste teu olho nu
o tempo deixou de existir?
que importa o tempo?
a sarjeta descobre-te
a sarjeta deseja-te
melhor assim
: olho por olho
elas por elas
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 17 de agosto de 2012
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
SONETO DA MATURIDADE
só por acumular erros antigos
já nem dou conta que a velhice é fato
ao longe avisto amadas e amigos
todos sorrindo no mesmo retrato
não temo a morte nem temo castigos
vou procurando manter-me sensato
planto maçãs onde nasciam figos
se hoje ressuscito amanhã me mato
torto é meu andar como este soneto
pouco se me dá se é de pé quebrado
a linha reta transformei em arco
não quero regras nem branco no preto
sou absoluto não troco de lado
e sigo só por conta do meu barco
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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já nem dou conta que a velhice é fato
ao longe avisto amadas e amigos
todos sorrindo no mesmo retrato
não temo a morte nem temo castigos
vou procurando manter-me sensato
planto maçãs onde nasciam figos
se hoje ressuscito amanhã me mato
torto é meu andar como este soneto
pouco se me dá se é de pé quebrado
a linha reta transformei em arco
não quero regras nem branco no preto
sou absoluto não troco de lado
e sigo só por conta do meu barco
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
TOADA MEIO ENJOADA
deste pão preto não quero
desta água podre não bebo
deste fruto já não mordo
qualquer um eu não recebo
este incenso não me agrada
este mel me dá azia
quero um copo de veneno
e distância da poesia
não me falem mais em flores
dane-se toda a quimera
caso o telefone toque
não estou pra primavera
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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desta água podre não bebo
deste fruto já não mordo
qualquer um eu não recebo
este incenso não me agrada
este mel me dá azia
quero um copo de veneno
e distância da poesia
não me falem mais em flores
dane-se toda a quimera
caso o telefone toque
não estou pra primavera
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 14 de agosto de 2012
POEMA PINTADO A DESENCANTO
tenho asas mas não sei mais como se voa
agora também pouco me importa saber
tomei pavor de altura
e penso que os pássaros existem apenas
na minha imaginação doente
tive um sorriso mas não me perguntem como
um dia eu o perdi na infância
vasculhei tudo o que pude
enfrentei ventos desafiei tempestades
sonhei sonhos que não devia na esperança
de encontrar meu sorriso
não o encontrei e com raiva prometi
nunca mais procurá-lo
tive o hábito de colecionar milagres
mas numa noite de desespero rompi com os
santos todos
deus com ódio de mim colocou-me
no banco dos réus antes do juízo final
se fui condenado ou não
até hoje ninguém me falou
mas acho que devo ter sido
porque vai dia vem dia descubro
que ainda continuo vivo
perdido no cu desta vida
13-08-12
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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agora também pouco me importa saber
tomei pavor de altura
e penso que os pássaros existem apenas
na minha imaginação doente
tive um sorriso mas não me perguntem como
um dia eu o perdi na infância
vasculhei tudo o que pude
enfrentei ventos desafiei tempestades
sonhei sonhos que não devia na esperança
de encontrar meu sorriso
não o encontrei e com raiva prometi
nunca mais procurá-lo
tive o hábito de colecionar milagres
mas numa noite de desespero rompi com os
santos todos
deus com ódio de mim colocou-me
no banco dos réus antes do juízo final
se fui condenado ou não
até hoje ninguém me falou
mas acho que devo ter sido
porque vai dia vem dia descubro
que ainda continuo vivo
perdido no cu desta vida
13-08-12
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 19 de julho de 2012
INTRODUÇÃO À LITERATURA
quando o poeta sierguéi iessênin achou que devia se matar
e se matou mesmo
vladimir maiakóvski - seu amigo -
puto com a atitude do camarada
dedicou-lhe um poema
onde aparece o famoso verso que atravessou a rússia
"Melhor morrer de vodca que de tédio"
maiakóvski - contam seus biógrafos - não era dado à bebida
talvez por isso
se esqueceu do poema feito ao amigo
e achou tempos depois de se matar também
e se matou mesmo
com um tiro no ouvido
- poesia tem disso
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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POEMA AO OCASO
Doces venenos.
Voos cegos.
Silêncios inconformados.
- Cadê palavra?, pergunta a boca.
Os olhos pescam azuis ociosos.
A tarde faz o que pode.
E constrói a paisagem com uma procissão de nuvens enfermas.
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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Voos cegos.
Silêncios inconformados.
- Cadê palavra?, pergunta a boca.
Os olhos pescam azuis ociosos.
A tarde faz o que pode.
E constrói a paisagem com uma procissão de nuvens enfermas.
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Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
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NATUREZA-MORTA A CARVÃO NA MESA DE UM BAR
esqueço ao sol o poema
secando num varal de palavras soltas
o poema tem os braços abertos
e o olhar perdido
como o do homem que ontem pela manhã
me veio pedir uma moeda
esqueço ao sol o poema
e antes que ele seque parto para a albânia
desenho um recado qualquer ao ocaso
pedindo que nenhuma palavra me acenda a memória
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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secando num varal de palavras soltas
o poema tem os braços abertos
e o olhar perdido
como o do homem que ontem pela manhã
me veio pedir uma moeda
esqueço ao sol o poema
e antes que ele seque parto para a albânia
desenho um recado qualquer ao ocaso
pedindo que nenhuma palavra me acenda a memória
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Júlio Saraiva,
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