“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

domingo, 29 de novembro de 2009

CANÇÃO EM SOL SUSTENIDO PARA O SEU ANIVERSÁRIO

para adriane


hoje prometo que vou deixar de ser velho
e vestir minha melhor roupa de menino e cantar uma cantiga de roda
no lugar do batido "Parabéns a Você"
e mesmo pela manhã
ainda que o dia acorde nublado e com chuva
haverá um sol que colhi para lhe dar como presente de aniversário

convocarei os primeiros galos da madrugada
para que despertem com seus cantos a estrela da manhã tão preguiçosa
ladrão que sou furtarei também
com a conivência de lorca três ou quatro dos seus melhores poemas
com as devidas desculpas ao poeta por não conseguir escrever
nenhum outro melhor
por absoluta falta de competência
(merecia eu a bala na nuca)

convidarei para a sua festa
sylvia plath ana cristina cesar hilda hilst e também clarice
pedirei a elas de joelhos que não morram nunca mais
trarei todas de volta à vida
como seu presente de aniversário
já que sou tão pobre e nenhum ouro lhe posso dar

tome esta canção desafinada
(perdão!) cantada pela minha voz tão rouca de tanto desatinos
pedirei ao mar que não tenha fúria
aos rios que venham calmos ao seu encontro
aos peixes que me tragam numa rede tecida
com os longos cabelos de iemanjá
o poema que pensei para você
pedirei aos homens que não falem mais em guerras
que não produzam as fomes
pequeno que sou mesmo assim pedirei
às mulheres que não abandonem seus filhos
pedirei (como seu presente de aniversário)
que o mundo possa respirar um pouco
ao menos hoje
respirar um pouco
porque sei que amanhã tudo volta ao normal

(30-11-2009)
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DITIRAMBO

A bem-amada me aguarda
com paraísos nos lábios
e pássaros nos dedos.

Minha bem-amada
é feita de chuvas distraídas.
No seu colo as nuvens se encolhem
e brincam de ninar as crianças mortas.

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

CANTIGA DO FUNDO DO POÇO





http://www.clesioboeira.com/meump3/julio.mp3


Procuro pela moeda
perdida no fundo do poço.
Não demora amanhece
e os desejos vão todos dormir exaustos.

Amigo, amiga:
- Procuro pela moeda,
mas vejo apenas meu rosto
no fundo do fundo do poço,
banhado de luas antigas,
vinte anos mais moço.

Procuro pela moeda,
Amigo, amiga...
E lá se vão vinte anos
no rastro de tantas mortes,
no fundo desta cantiga.

Procuro pela moeda
já gasta de tantos desejos:
vasculho pedra por pedra
e nem sinal da moeda
entre os escombros que vejo.

Amigo, amiga:
- Vinte anos mais moço
procuro pela moeda
no fundo desta cantiga
(cantiga dos afogados
que dormem no fundo do poço).


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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
declamado pelo poeta José Silveira,
Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
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FADO PARA MARIO OSORIO, POETA, MEU AMIGO

tenho a quase louca impressão:
vi-te  a beber chá ou rum num qualquer café londrino
tinhas o cigarro ao canto da boca
e eu bebia e fumava também
 estávamos separados a poucos metros por uma mesa
e eu não tirava os olhos das pernas da garçonete com sotaque francês
corria o ano de 1956
ano em que por acaso nasci
lias alguns jornais no café
e reparei que a exemplo dos meus os teus olhos eram tristes
culpa talvez das notícias
depois bem depois soube que o amigo navegava
pelos mares de lisboa
amália ainda cantava
e podia se ouvir pelo rádio
mas sabes como é mario
quando a gente caça gilete para cortar os pulsos
procura sempre a veia mais azul
o sangue esguicha mais rápido
a hemorragia vem mais depressa
e a morte é um salto só
mas neste tempo eu ainda estava no ventre da mãe
não tinha ideias suicidas
e nem planejava escrever nenhum poema

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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LUZ PERPÉTUA

para Manuel Bandeira (do Brasil), como queria Drummond

"Sou bem nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis."

(Manuel Bandeira, in A Cinza das Horas)

"Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" -"Não foi!"

(M.B., in Carnaval, poema declamado pelo poeta Ronald Carvalho,
durante a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo,
em fevereiro de 1922. Recebido sob vaias, por um plateia burguesa e moralista, fez valer a Manuel Bandeira
o epíteto de "O São João Batista do Modernismo".)


Por ocasião da Primavera,
o conselho supremo dos patos
do lago do Ibirapuera
pede um minuto de zoeira
em solene homenagem aos sapos
do poeta Manuel Bandeira.


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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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VERSOS DE FORA

coma-me,  possua-me,
esfrega na minha cara o que tens.
sou puta de rua mesmo.
me troca por mais outros dois.
me joga no lixo depois.
me faz gozar no teu corpo.
dorme depois feito um porco...
eu juro não te acordar

(mas não te esqueças  que fui tua mulher
um tempo, algumas horas talvez.)

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Annabárbara,
Rio de Janeiro, Brasil
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

VENTURA

Quem sabe meter pelo maço
no bolso uma
concha tentada
A nota com nota na quase
intenção de rasgar o desvelo
: “encontre-me aqui e suba depressa comigo”
Quem sabe na esquina
o olho -grau onde queima um carro
Primeira marcha: abrir uma praia em tear
Contrário, na quarta, romper a fechada
em tapete
Num vidro bonito que acima do ombro
quem sabe dormir sem querer
ouvir sem querer e disso querer migrar
Quem sabe morrer
sem deixar por acaso
Pautar desnecessária a voragem
Omitir-te assim tudo isso
A outro por nada entregar
Quem sabe dizer?

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Adriane B.,
São Paulo, Brasil
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