luar enjaulado
tua ausência
minha vida por um fio
__________
júlio
quinta-feira, 29 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
COMUNHÃO
A Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns.
O pão ázimo
dos aflitos
amarga
em minha
boca.
__________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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O pão ázimo
dos aflitos
amarga
em minha
boca.
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 23 de julho de 2010
CAMÕES DE BOTEQUIM
Se, quando não se esquece, a dor se anunciasse,
A dor de dor se ter na certa nos movesse,
E a falta de doer talvez não mais doesse.
Que passe a se ter dor em tudo e tudo passe!
Viver-se apaziguado assim, e sempre nesse
Bem calmo estar-se e ter-se e dar-se apaziguasse!...
Mas se mais paz eu penso que acabasse
Num desespero mais que aquele que eu tivesse!
Dirão a mim: - Poeta, assim também não pode.
Se tens uma agonia, louva-na numa ode.
E se posto em sossego, num soneto o traga...
E eu direi a quem disser pra mim: - Não fode.
Que o espasmo de um poeta é feito em dor e chaga
E quem diz que não na própria cabeça caga.
_______________________
Paulo César Pinheiro,
Rio de Janeiro, Brasil
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A dor de dor se ter na certa nos movesse,
E a falta de doer talvez não mais doesse.
Que passe a se ter dor em tudo e tudo passe!
Viver-se apaziguado assim, e sempre nesse
Bem calmo estar-se e ter-se e dar-se apaziguasse!...
Mas se mais paz eu penso que acabasse
Num desespero mais que aquele que eu tivesse!
Dirão a mim: - Poeta, assim também não pode.
Se tens uma agonia, louva-na numa ode.
E se posto em sossego, num soneto o traga...
E eu direi a quem disser pra mim: - Não fode.
Que o espasmo de um poeta é feito em dor e chaga
E quem diz que não na própria cabeça caga.
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Paulo César Pinheiro,
Rio de Janeiro, Brasil
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segunda-feira, 19 de julho de 2010
ERA PARA SER UM POEMA DE AMOR
arrepia os acordes elos da espinhal-medula
tal abelha sem colmeia. carnívora
morde as pernas em toques de mel
explora jardins por um postigo a sul.
desconfio que tenho uma colmeia no meio do meu jardim.
um anel de azeviche enviado como prenda
lacre envelope branco emprenha
estreita fricha no postigo
sob o sol do teu meio dia
de lanternas maçãs maduras
então no trilho calmo de uma vasta curva
mudas de roupa, respingas dentes de rodízios
um sedar de treva-flor se avizinha
excelente trocar de cuecas para mochos.
desconfio que tenho um boticário no meio da minha cozinha
enxame secular
mordisca o ar
onde se escuta o entoar dos dedos gordos de um velho hipnotismo
marca inúmeros encontros comigo
telefónicas memórias adubam a minha terra já farta.
desconfio que tenho um saco de estrume no meio do meu caminho.
uma brisa beija violentas violetas calmamente
em ramos alaranjados a treva agreste
ao pé do quiosque da esquina
um jornal de folhas secas
sabem a jacintos.
como te sinto.
desconfio que tenho radares, bússolas, quadrantes,
sextantes, muletas e enxadas
que transporto nas bossas de camelo,
atiradas contra o disparate que não mais dá troco a de-
lírios,
pr'além dos espinhos das rosas que não forçam mais areia.
Estás aí? conhecer. Teu
marsupial coração que recolhe o essencial do que conheço.
____________________
Maria João Mesquita,
Porto, Portugal
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tal abelha sem colmeia. carnívora
morde as pernas em toques de mel
explora jardins por um postigo a sul.
desconfio que tenho uma colmeia no meio do meu jardim.
um anel de azeviche enviado como prenda
lacre envelope branco emprenha
estreita fricha no postigo
sob o sol do teu meio dia
de lanternas maçãs maduras
então no trilho calmo de uma vasta curva
mudas de roupa, respingas dentes de rodízios
um sedar de treva-flor se avizinha
excelente trocar de cuecas para mochos.
desconfio que tenho um boticário no meio da minha cozinha
enxame secular
mordisca o ar
onde se escuta o entoar dos dedos gordos de um velho hipnotismo
marca inúmeros encontros comigo
telefónicas memórias adubam a minha terra já farta.
desconfio que tenho um saco de estrume no meio do meu caminho.
uma brisa beija violentas violetas calmamente
em ramos alaranjados a treva agreste
ao pé do quiosque da esquina
um jornal de folhas secas
sabem a jacintos.
como te sinto.
desconfio que tenho radares, bússolas, quadrantes,
sextantes, muletas e enxadas
que transporto nas bossas de camelo,
atiradas contra o disparate que não mais dá troco a de-
lírios,
pr'além dos espinhos das rosas que não forçam mais areia.
Estás aí? conhecer. Teu
marsupial coração que recolhe o essencial do que conheço.
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Maria João Mesquita,
Porto, Portugal
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HÁ UMA MULHER QUE TALVEZ ME AME
há uma mulher que talvez me ame
escondida numa cidade qualquer do meu país
não sei no entanto se terei tempo de amá-la
ou mesmo conhece-la
não a quero vítima do meu desassossego
se ao menos eu lhe soubesse o nome
ou o endereço - nem que fosse o de um parente próximo
escrevia pedindo-lhe que me esquecesse
gostaria de informá-la que tenho as malas feitas
basta um gole de coragem
há uma mulher que talvez me ame
mas eu não quero que ela siga o meu caminho
meus dias ficaram mais curtos - o que me põe aliviado
cansei das palavras que anos a fio me perseguiram
fartei-me de construir versos
formas/sílabas nada disso me interessa mais
tenho corredores imensos a percorrer
vou terminar no mesmo labirinto - sei disso
há uma mulher que talvez me ame
sem pedir qualquer ternura em troca
sem esperar que eu lhe dê sequer uma jóia barata
ou poemas que já não faço mais
arrependimento também não me pede
manda dizer que eu tranque minhas culpas no armário
e guarde o copo de veneno que tenho sobre o criado-mudo
para o 5º domingo depois de pentecostes
_________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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escondida numa cidade qualquer do meu país
não sei no entanto se terei tempo de amá-la
ou mesmo conhece-la
não a quero vítima do meu desassossego
se ao menos eu lhe soubesse o nome
ou o endereço - nem que fosse o de um parente próximo
escrevia pedindo-lhe que me esquecesse
gostaria de informá-la que tenho as malas feitas
basta um gole de coragem
há uma mulher que talvez me ame
mas eu não quero que ela siga o meu caminho
meus dias ficaram mais curtos - o que me põe aliviado
cansei das palavras que anos a fio me perseguiram
fartei-me de construir versos
formas/sílabas nada disso me interessa mais
tenho corredores imensos a percorrer
vou terminar no mesmo labirinto - sei disso
há uma mulher que talvez me ame
sem pedir qualquer ternura em troca
sem esperar que eu lhe dê sequer uma jóia barata
ou poemas que já não faço mais
arrependimento também não me pede
manda dizer que eu tranque minhas culpas no armário
e guarde o copo de veneno que tenho sobre o criado-mudo
para o 5º domingo depois de pentecostes
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 18 de julho de 2010
MAIS HAI-KAIS
13.
ao ver-se no espelho do mar
a lua aproveita
para se masturbar
______
14.
nosso amor já era
o anel que tu me deste
eu perdi no riviera
________
15.
perco-me de vista
no breu deste silêncio teu
de monge trapista
________
16.
as bocas comeram
os dentes - agora como
roer as gengivas?
________
17.
humilhada a lesma
enfia-se entre as plantas com
nojo de si mesma
_________
18.
o trem se despede
apita e some levando
as coisas da infância
_________
19.
no rosto do velho
uma luz: é para a morte
enxergá-lo melhor
__________
20.
deem-me vinho e paz
fiquem com o resto - porque
o resto tanto faz
__________
21.
oh lança teu anzol
ao firmamento! tem calma
e fisgarás o sol
__________
22.
numa volta esbelta
a gaivota faz de conta
que é asa-delta
__________
23.
bravo meu poeta!
teu poema é belo como
gol de bicicleta
__________
24.
último cigarro...
noite fria... só desejo
retornar ao barro
__________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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ao ver-se no espelho do mar
a lua aproveita
para se masturbar
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14.
nosso amor já era
o anel que tu me deste
eu perdi no riviera
________
15.
perco-me de vista
no breu deste silêncio teu
de monge trapista
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16.
as bocas comeram
os dentes - agora como
roer as gengivas?
________
17.
humilhada a lesma
enfia-se entre as plantas com
nojo de si mesma
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18.
o trem se despede
apita e some levando
as coisas da infância
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19.
no rosto do velho
uma luz: é para a morte
enxergá-lo melhor
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20.
deem-me vinho e paz
fiquem com o resto - porque
o resto tanto faz
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21.
oh lança teu anzol
ao firmamento! tem calma
e fisgarás o sol
__________
22.
numa volta esbelta
a gaivota faz de conta
que é asa-delta
__________
23.
bravo meu poeta!
teu poema é belo como
gol de bicicleta
__________
24.
último cigarro...
noite fria... só desejo
retornar ao barro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
HAI-KAIS
1.
a flauta flutua
na pauta noturna traço
a clave de lua
______
2.
ganido vazio
o viralata fareja
estrelas no cio
________
3.
madrugada de abril
outono - o vento sem sono
lê o jornal do brasil
_________
4.
aqui jaz a ode
é fatal: - o poeta faz
mas também fode
__________
5.
ó rosa nômade
em pétalas maiúsculas
escrevo o teu nome
___________
6.
quimeras partidas
cacos de mim se esparramam
sinto-me náufrago!
___________
7.
ah cara-metade
como dormias profundo
no quarto-crescente!
__________
8.
facas de dois gumes
minha amada são estes teus
olhos vagalumes
__________
9.
as três marias são
reticências luminosas
no céu de dezembro
__________
10.
sob o luar verde
da lâmpada as mariposas
exibem seus leques
__________
11.
ritual de inverno
:a lareira que não temos
nos empresta o calor
__________
12.
meu olho-bússola
enferrujado aponta o
norte da loucura
_______________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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a flauta flutua
na pauta noturna traço
a clave de lua
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2.
ganido vazio
o viralata fareja
estrelas no cio
________
3.
madrugada de abril
outono - o vento sem sono
lê o jornal do brasil
_________
4.
aqui jaz a ode
é fatal: - o poeta faz
mas também fode
__________
5.
ó rosa nômade
em pétalas maiúsculas
escrevo o teu nome
___________
6.
quimeras partidas
cacos de mim se esparramam
sinto-me náufrago!
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7.
ah cara-metade
como dormias profundo
no quarto-crescente!
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8.
facas de dois gumes
minha amada são estes teus
olhos vagalumes
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9.
as três marias são
reticências luminosas
no céu de dezembro
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10.
sob o luar verde
da lâmpada as mariposas
exibem seus leques
__________
11.
ritual de inverno
:a lareira que não temos
nos empresta o calor
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12.
meu olho-bússola
enferrujado aponta o
norte da loucura
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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