MAIS MERIDIONAL
Adriane Bonillo
Há um frio me prendendo nas partes tenras
a segunda parte me gruda à geleira
Minhas botas de pedra polida
afundaram na areia aberta
Não sou mais de terra
tenho endurecido no uivo do frio
tenho emudecido
tenho medo do vítreo
e uma neve imunda corta-me o cio
desde os eixos torcidos dos olhos
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TAREFA
Eunice Arruda
cabe agora
morrer o corpo
dia a
dia ir
me desacostumando
do rosto
que eu chamava meu
______________
CORTE E LASER
Martha Medeiros
ela disse:
olha, se você quiser
faço uma massa que só eu sei
compro um vinho chocante
e durmo na sua casa esta noite
ele disse:
prefiro encomendar uma pizza
e assistir ao jogo do Grêmio
sozinho
______________
As poetas:
Adriane Bonillo e Eunice Arruda,
São Paulo, Brasil
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Martha Medeiros,
Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
________________________________________
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
O VINHO NA POESIA DA PAULISTANA RENATA PALLOTTINI (*)
A BORDO DA ALMA
Esse vinho, esse vinho, esse vinho vadio!
Reteso a alma no avião de prata
que vai furando o espaço como um bicho.
Se bebêssemos todos, todo o tempo,
que delícia seria!
Sem problemas de fígado,
sem problemas de culpa
sem problemas de medo
sem problemas de vício.
A vida vindo a ser o que devia:
absolutamente agora
sem nenhum
outro dia.
_________
DE MADRUGADA
A vida é muito dura
pra se levar a seco.
Se os índios mascam coca
sabem eles.
Preferes Coca-Cola?
Preferes o dinheiro?
Preferes fazer compras?
Preferes a vitória?
A gente bebe vinho
e é bom, de madrugada.
É o que se pode fazer
quando não se pode fazer nada.
________
AUSÊNCIA
O vinho verte ouro sobre o mar.
Bebe. O corpo é de estanho. Estão distantes
os limões e as azáleas de tua casa
as dores do passado e do presente.
Nada morreu, ninguém partiu e tudo é mel do Himeto.
Esta explosão de fogo não é mais do que o sol.
Bebe. O vinho tem força de delírio
e cura como o aroma dos pinheiros
das idades antigas.
Eu te amo no vinho
te amei na embriaguez.
Bebe. Hoje, como sempre,
amar é a primeira vez.
_________
(*) Todos os poemas foram tirados do livro
Esse Vinho Vadio (Massao Ohno Editor, São Paulo,
Brasil,1988).
___________________
Renata Pallottini,
São Paulo, Brasil
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Esse vinho, esse vinho, esse vinho vadio!
Reteso a alma no avião de prata
que vai furando o espaço como um bicho.
Se bebêssemos todos, todo o tempo,
que delícia seria!
Sem problemas de fígado,
sem problemas de culpa
sem problemas de medo
sem problemas de vício.
A vida vindo a ser o que devia:
absolutamente agora
sem nenhum
outro dia.
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DE MADRUGADA
A vida é muito dura
pra se levar a seco.
Se os índios mascam coca
sabem eles.
Preferes Coca-Cola?
Preferes o dinheiro?
Preferes fazer compras?
Preferes a vitória?
A gente bebe vinho
e é bom, de madrugada.
É o que se pode fazer
quando não se pode fazer nada.
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AUSÊNCIA
O vinho verte ouro sobre o mar.
Bebe. O corpo é de estanho. Estão distantes
os limões e as azáleas de tua casa
as dores do passado e do presente.
Nada morreu, ninguém partiu e tudo é mel do Himeto.
Esta explosão de fogo não é mais do que o sol.
Bebe. O vinho tem força de delírio
e cura como o aroma dos pinheiros
das idades antigas.
Eu te amo no vinho
te amei na embriaguez.
Bebe. Hoje, como sempre,
amar é a primeira vez.
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(*) Todos os poemas foram tirados do livro
Esse Vinho Vadio (Massao Ohno Editor, São Paulo,
Brasil,1988).
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Renata Pallottini,
São Paulo, Brasil
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domingo, 5 de setembro de 2010
SONETILHO TORTO COM FLORES DO MAL
tiradas do quintal
flores que deste
eram flores do mal
pensando perfume
aspirei veneno
ah mundo pequeno!
faca de um só gume
cega de ciúme
no escuro pleno
vi a estrela vênus
falecer sem lume
do quintal tiradas
deste-me só flores
amaldiçoadas
_________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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flores que deste
eram flores do mal
pensando perfume
aspirei veneno
ah mundo pequeno!
faca de um só gume
cega de ciúme
no escuro pleno
vi a estrela vênus
falecer sem lume
do quintal tiradas
deste-me só flores
amaldiçoadas
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 4 de setembro de 2010
TAMBÉM FUMO DO MEU CIGARRO
Ao Mário Osorio
irmão - também fumo do meu cigarro
há anos pratico autodestruição
vim do barro devo tornar ao barro
muito bem guardado dentro do caixão
caso eu apareça não te assustes não
fantasma bom não deve ter pigarro
nem mesmo tosse seguida de escarro
que sempre causa certa má impressão
mas talvez dos dois me sobre um pulmão
prova de que na vida ainda me amarro
dá-me um cigarro isqueiro tenho à mão
fumo e vou em frente a viver de sarro
pouco se me dá se estou na contramão
pobre sigo a pé por faltar-me o carro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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irmão - também fumo do meu cigarro
há anos pratico autodestruição
vim do barro devo tornar ao barro
muito bem guardado dentro do caixão
caso eu apareça não te assustes não
fantasma bom não deve ter pigarro
nem mesmo tosse seguida de escarro
que sempre causa certa má impressão
mas talvez dos dois me sobre um pulmão
prova de que na vida ainda me amarro
dá-me um cigarro isqueiro tenho à mão
fumo e vou em frente a viver de sarro
pouco se me dá se estou na contramão
pobre sigo a pé por faltar-me o carro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010
CONSELHO (NÃO CARTA) A UM JOVEM POETA
não perca seu tempo menino
poesia é luxo besta
não dá camisa a ninguém
não traz dinheiro
poesia é doença
dizem não ter cura
não perca seu tempo menino
poesia não enche barriga
poesia é vício
fábrica de suicidas
não perca seu tempo menino
ingresse na vida pública
vá ser juiz de direito
ainda que você ande torto
seu futuro estará garantido
dentro da toga a consciência
é o que menos importa
se não der certo na política
vá vender terreno na lua
em marte talvez plutão
case constitua família
faz muitos filhos na sua mulher
aumente a população
deste mundo de bosta
e se ainda assim não vingar
entre para um convento
terá casa e comida de graça
e a graça não lhe vai faltar
os poetas são seres perdidos
não perca seu tempo menino
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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poesia é luxo besta
não dá camisa a ninguém
não traz dinheiro
poesia é doença
dizem não ter cura
não perca seu tempo menino
poesia não enche barriga
poesia é vício
fábrica de suicidas
não perca seu tempo menino
ingresse na vida pública
vá ser juiz de direito
ainda que você ande torto
seu futuro estará garantido
dentro da toga a consciência
é o que menos importa
se não der certo na política
vá vender terreno na lua
em marte talvez plutão
case constitua família
faz muitos filhos na sua mulher
aumente a população
deste mundo de bosta
e se ainda assim não vingar
entre para um convento
terá casa e comida de graça
e a graça não lhe vai faltar
os poetas são seres perdidos
não perca seu tempo menino
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010
MAÇÃS ARGENTINAS
meu irmão
que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
calça sapatos gastos
de caminhos percorridos
por outros pés
meu irmão
que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
não sonha com maçãs argentinas
meu irmão
que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
não sonha com nada
apenas descansa um pouco
do pesadelo diário
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
calça sapatos gastos
de caminhos percorridos
por outros pés
meu irmão
que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
não sonha com maçãs argentinas
meu irmão
que dorme na calçada
com a cara enfiada
numa caixa de maçãs argentinas
não sonha com nada
apenas descansa um pouco
do pesadelo diário
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
ELEGIA QUASE DIDÁTICA PARA UM PAÍS QUE UM DIA PERDEU SEU RUMO
minha rua era um rio sem água
que terminava na esquina
onde o bonde fazia ponto final
meu avô português discutia
com o fiscal espanhol
quando discussão acirrava
os dois faziam pausa
davam uma espécie de trégua
e concordavam que salazar e franco
eram lixo do mesmo saco
putas da mesma zona
(morte aos dois): o brasil
era um país abençoado - diziam
e tudo acabava bem
em risadas e copos de macieira
meu avô português e o fiscal espanhol
até que chegou 1964
e os militares desabençoaram o brasil
filhos da puta!
foram juntar-se a salazar e franco
no mesmo saco de lixo
só eu menino sabia que minha rua era um rio
sem água
sem barcos
sem peixes
sem a mãe d'água também
e portanto não ia dar no mar
a menos que a minha imaginação quisesse
aí sim o mar aparecia salgado e os poucos carros
que trafegavam viravam navios imensos
e iam juntar-se aos outros que eu inventava
eu não sabia de salazar
eu não sabia de franco
eu não sabia de putas
eu não sabia o que estava acontecendo
no meu país em 1964
e embarcava num desses navios
atravessava o atlântico e aportava noutras terras
porque nos meus 8 anos era permitido sonhar
quando os bondes deixaram de circular
o fiscal espanhol nunca mais apareceu
meu avô português morreu atropelado
perto da minha rua que era dele também
mas o rio tinha sumido
e os carros não viravam mais navios
nem a minha imaginação me levava
ao outro lado do atlântico
o brasil desabençoado tornou-se um país doente
e a propaganda do governo
espalhada por todos os cantos dizia:
"AME-O OU DEIXE-O"
"AME-O OU DEIXE-O"
"AME-O OU DEIXE-O"
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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que terminava na esquina
onde o bonde fazia ponto final
meu avô português discutia
com o fiscal espanhol
quando discussão acirrava
os dois faziam pausa
davam uma espécie de trégua
e concordavam que salazar e franco
eram lixo do mesmo saco
putas da mesma zona
(morte aos dois): o brasil
era um país abençoado - diziam
e tudo acabava bem
em risadas e copos de macieira
meu avô português e o fiscal espanhol
até que chegou 1964
e os militares desabençoaram o brasil
filhos da puta!
foram juntar-se a salazar e franco
no mesmo saco de lixo
só eu menino sabia que minha rua era um rio
sem água
sem barcos
sem peixes
sem a mãe d'água também
e portanto não ia dar no mar
a menos que a minha imaginação quisesse
aí sim o mar aparecia salgado e os poucos carros
que trafegavam viravam navios imensos
e iam juntar-se aos outros que eu inventava
eu não sabia de salazar
eu não sabia de franco
eu não sabia de putas
eu não sabia o que estava acontecendo
no meu país em 1964
e embarcava num desses navios
atravessava o atlântico e aportava noutras terras
porque nos meus 8 anos era permitido sonhar
quando os bondes deixaram de circular
o fiscal espanhol nunca mais apareceu
meu avô português morreu atropelado
perto da minha rua que era dele também
mas o rio tinha sumido
e os carros não viravam mais navios
nem a minha imaginação me levava
ao outro lado do atlântico
o brasil desabençoado tornou-se um país doente
e a propaganda do governo
espalhada por todos os cantos dizia:
"AME-O OU DEIXE-O"
"AME-O OU DEIXE-O"
"AME-O OU DEIXE-O"
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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