eu queimei o tempo
como quem brinca de roda
como quem joga pedra
no telhado do vizinho
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
astronauta sem vocação
fui procurar são jorge
só encontrei o dragão
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
num baile de debutantes
mas antes do fim do baile
a dama desencantou
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
quando todo mundo é poeta
pensava um sorriso de moça
e a poesia me vinha no ar
eu fui poeta aos vinte anos
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
eu fui e fiz tanta coisa
que hoje me dá pena lembrar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
AVE, MEU POETA!
entre o riso & o risco
sou mais o risco
e rabisco o poema
feito de palavras cegas
diante da luz do refletor deste palco
o ar que me escapa das narinas
provoca incêndios azuis
mas os danos só serão contados
no dia seguinte quando os mortos
vierem dar queixa dos bens desaparecidos
se me for possível escolher prefiro
o trapézio ao tablado porque
o perigo é sempre maior
& os aplausos mais calorosos
a convalescença da morte por queda
é mais lenta - por isso vivo em estado de voo
& de cara limpa & sem medo
á queda livre me entrego
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sou mais o risco
e rabisco o poema
feito de palavras cegas
diante da luz do refletor deste palco
o ar que me escapa das narinas
provoca incêndios azuis
mas os danos só serão contados
no dia seguinte quando os mortos
vierem dar queixa dos bens desaparecidos
se me for possível escolher prefiro
o trapézio ao tablado porque
o perigo é sempre maior
& os aplausos mais calorosos
a convalescença da morte por queda
é mais lenta - por isso vivo em estado de voo
& de cara limpa & sem medo
á queda livre me entrego
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 21 de agosto de 2010
TESTAMENTO
quero deixar-te essas noites
nos meus bolsos escondidas
são o resumo das minhas
sete mil e tantas vidas
também vou deixar-te as rimas
dos versos que não escrevi
anotações de viagens
por lugares que nunca vi
deixo-te trajes de gala
aqueles que nunca usei
meu chapéu de aba puída
coroa de quando fui rei
minhas mentiras te deixo
pra que não precises mentir
a verdade vai comigo
a ninguém interessa ouvir
também deixo-te a cadeira
ainda ontem meu lugar
minhas dores jogo fora
essas não te quero deixar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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nos meus bolsos escondidas
são o resumo das minhas
sete mil e tantas vidas
também vou deixar-te as rimas
dos versos que não escrevi
anotações de viagens
por lugares que nunca vi
deixo-te trajes de gala
aqueles que nunca usei
meu chapéu de aba puída
coroa de quando fui rei
minhas mentiras te deixo
pra que não precises mentir
a verdade vai comigo
a ninguém interessa ouvir
também deixo-te a cadeira
ainda ontem meu lugar
minhas dores jogo fora
essas não te quero deixar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
KYRIE ELÉISON
sem terra
sem trigo
sem pão
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sem trigo
sem pão
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 8 de agosto de 2010
ELEGIA A MEU PAI
Foi preciso conhecer o mar
Buscar a estrela desencontrada
Envelhecer um pouco
Dar um tempo ao tempo
Foi preciso reinventar um anjo
Acreditar na chuva
Não escovar os dentes
Naquela sexta-feira
Foi preciso viajar cidades
Nunca visitadas
Assassinar mulheres
E sonhar um filho
Foi preciso não fazer a barba
Anoitecer calado
Espantar o sono
Investir no nada
Foi preciso desfazer as malas
E desfazendo as malas
Te saber ausente
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Buscar a estrela desencontrada
Envelhecer um pouco
Dar um tempo ao tempo
Foi preciso reinventar um anjo
Acreditar na chuva
Não escovar os dentes
Naquela sexta-feira
Foi preciso viajar cidades
Nunca visitadas
Assassinar mulheres
E sonhar um filho
Foi preciso não fazer a barba
Anoitecer calado
Espantar o sono
Investir no nada
Foi preciso desfazer as malas
E desfazendo as malas
Te saber ausente
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
CANÇÂO DO POEMA INÚTIL
ao Domingos da Mota, meu amigo
"Morreram todos a bordo, mas o barco persegue o intento que
desde o porto vem buscando."
- Seféris, com tradução do grego do poeta José Paulo Paes -
não me seduz mais caminhar entre mortos neste teatro vazio
as palavras estão gastas como as minhas sandálias de couro cru
não quero mais percorrer essas ruas sem saída
as feridas que trago nos olhos não cicatrizam mais
deixei para trás as esquinas que carregava comigo
herança de madrugadas inúteis
esqueci também a mulher que me esperava com um sorriso
e um por-de-sol nas mãos muito brancas
preciso respirar noutro porto
este aqui não me serve mais: meu navio naufragou - poucos se salvaram
não preciso de sorrisos enviados em garrafas
se não ancorei onde pretendia foi por não conhecer a intimidade dos ventos
os ventos me enganaram
deixei-me trair por uma bússola que pensei existir na palma da minha mão
o norte no entanto era outro e eu não consegui dicifrá-lo
em compensação ainda estou vivo
e não sinto mais nenhuma necessidade do poema
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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"Morreram todos a bordo, mas o barco persegue o intento que
desde o porto vem buscando."
- Seféris, com tradução do grego do poeta José Paulo Paes -
não me seduz mais caminhar entre mortos neste teatro vazio
as palavras estão gastas como as minhas sandálias de couro cru
não quero mais percorrer essas ruas sem saída
as feridas que trago nos olhos não cicatrizam mais
deixei para trás as esquinas que carregava comigo
herança de madrugadas inúteis
esqueci também a mulher que me esperava com um sorriso
e um por-de-sol nas mãos muito brancas
preciso respirar noutro porto
este aqui não me serve mais: meu navio naufragou - poucos se salvaram
não preciso de sorrisos enviados em garrafas
se não ancorei onde pretendia foi por não conhecer a intimidade dos ventos
os ventos me enganaram
deixei-me trair por uma bússola que pensei existir na palma da minha mão
o norte no entanto era outro e eu não consegui dicifrá-lo
em compensação ainda estou vivo
e não sinto mais nenhuma necessidade do poema
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
ANA BOTAFOGO
pernas param no ar
como um delicado par de asas
gestos costroem azuis em cada
movimento do corpo leve
fino cristal
tudo é voo e graça
os passos de ana botafogo riscam
arcos no infinito
como se desenhassem o mundo
com as pontas dos pés
o tempo esqueceu de passar
e aplaudiu a bailarina
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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como um delicado par de asas
gestos costroem azuis em cada
movimento do corpo leve
fino cristal
tudo é voo e graça
os passos de ana botafogo riscam
arcos no infinito
como se desenhassem o mundo
com as pontas dos pés
o tempo esqueceu de passar
e aplaudiu a bailarina
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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