QUANDO ESTOU NATURAL
Quando estou natural
é que posso sentir-me
intimamente ligada
à vida.
Quando estou desprevenida,
- pés de água e de terra -
o corpo todo em contato
a caminhar erguido
e penetrado na atmosfera.
Compreendo, porque sinto
e depois penso:
- Não corrijo as sensações -
apenas as configuro
e lhes dou sentido.
Nenhuma vastidão me estreita
ou intimida;
com o natural em tudo,
numa entrega sem medida,
nos meus pés de água e terra
no meu ser de amanhã
- Eu existo a minha vida.
SONETO
"Transforma-se o amador na coisa amada"
- Camões -
Se anunciada foi vossa partida
e por clarins de lírios proclamada,
se sangrais nessa ausência minha vida
que o vosso ardor retém aprisionada;
se em vosso ser eu vejo-me represa
- livre corrente em posse perturbada -
se soubestes ao ver-me derrubada
erguer em mim a vossa fortaleza,
como quereis, senhor, que eu me liberte
só porque desejais assim partir
a uma nova paixão que vos desperte?
- Quiseste que eu tivesse a vossa crença
e me exigistes tanto ao possuir,
que eu sigo junto a ser vossa presença.
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Lupe Cotrim,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
MANINHA
- Para Lenora -
à falta do que fazer
me escreva
:coisa rápida
não mais que duas palavras
à falta do que inventar
me invente
:coisa simples
somada à minha loucura
acrescente
aquilo que lhe parecer melhor
uma ruga na testa cai bem
à falta do que matar
me mate
:coisa prática
revólver dágua bomba de inseticida
bola de chiclete sanduíche do mcdonald's
à falta do que sentir
sinta saudade minha maninha
e me mande um beijo
:coisa boba
nem que seja um beijo
de cartão postal
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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à falta do que fazer
me escreva
:coisa rápida
não mais que duas palavras
à falta do que inventar
me invente
:coisa simples
somada à minha loucura
acrescente
aquilo que lhe parecer melhor
uma ruga na testa cai bem
à falta do que matar
me mate
:coisa prática
revólver dágua bomba de inseticida
bola de chiclete sanduíche do mcdonald's
à falta do que sentir
sinta saudade minha maninha
e me mande um beijo
:coisa boba
nem que seja um beijo
de cartão postal
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 28 de agosto de 2010
TEOFAGIA
"De devoções às tontas livre-nos Deus..."
- Teresa de Ávila -
Deus
todas as noites
me visita.
Mas
tudo é tão depressa que
quando menos espero
caio
em mim
novamente
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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- Teresa de Ávila -
Deus
todas as noites
me visita.
Mas
tudo é tão depressa que
quando menos espero
caio
em mim
novamente
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010
PERFIL DE UM MAU JOGADOR
tenho nos lábios um sorriso falso e falho
isto é só detalhe do que a má jogada traz
por ser longo o caminho preferi o atalho
mas havia tantos lobos - eu não fui capaz
então apostei o quase-nada que valho
tirei o rei de espadas quando queria o ás
sem nenhuma habilidade com o baralho
e também sem sorte não pude voltar atrás
recuar não recuei - e segui em frente
perdendo nas esquinas o muito que eu tinha
apólices ouros dinheiros roupas dente
e pior: uma ruiva que não era minha
somemos a isso tudo a própria vergonha
coisa que diz pouco pra quem ainda sonha
26-08-10
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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isto é só detalhe do que a má jogada traz
por ser longo o caminho preferi o atalho
mas havia tantos lobos - eu não fui capaz
então apostei o quase-nada que valho
tirei o rei de espadas quando queria o ás
sem nenhuma habilidade com o baralho
e também sem sorte não pude voltar atrás
recuar não recuei - e segui em frente
perdendo nas esquinas o muito que eu tinha
apólices ouros dinheiros roupas dente
e pior: uma ruiva que não era minha
somemos a isso tudo a própria vergonha
coisa que diz pouco pra quem ainda sonha
26-08-10
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
MODINHA OU NO CAMINHO DE DRUMMOND
eu queimei o tempo
como quem brinca de roda
como quem joga pedra
no telhado do vizinho
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
astronauta sem vocação
fui procurar são jorge
só encontrei o dragão
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
num baile de debutantes
mas antes do fim do baile
a dama desencantou
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
quando todo mundo é poeta
pensava um sorriso de moça
e a poesia me vinha no ar
eu fui poeta aos vinte anos
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
eu fui e fiz tanta coisa
que hoje me dá pena lembrar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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como quem brinca de roda
como quem joga pedra
no telhado do vizinho
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
astronauta sem vocação
fui procurar são jorge
só encontrei o dragão
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
num baile de debutantes
mas antes do fim do baile
a dama desencantou
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
quando todo mundo é poeta
pensava um sorriso de moça
e a poesia me vinha no ar
eu fui poeta aos vinte anos
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
eu fui e fiz tanta coisa
que hoje me dá pena lembrar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
AVE, MEU POETA!
entre o riso & o risco
sou mais o risco
e rabisco o poema
feito de palavras cegas
diante da luz do refletor deste palco
o ar que me escapa das narinas
provoca incêndios azuis
mas os danos só serão contados
no dia seguinte quando os mortos
vierem dar queixa dos bens desaparecidos
se me for possível escolher prefiro
o trapézio ao tablado porque
o perigo é sempre maior
& os aplausos mais calorosos
a convalescença da morte por queda
é mais lenta - por isso vivo em estado de voo
& de cara limpa & sem medo
á queda livre me entrego
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sou mais o risco
e rabisco o poema
feito de palavras cegas
diante da luz do refletor deste palco
o ar que me escapa das narinas
provoca incêndios azuis
mas os danos só serão contados
no dia seguinte quando os mortos
vierem dar queixa dos bens desaparecidos
se me for possível escolher prefiro
o trapézio ao tablado porque
o perigo é sempre maior
& os aplausos mais calorosos
a convalescença da morte por queda
é mais lenta - por isso vivo em estado de voo
& de cara limpa & sem medo
á queda livre me entrego
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 21 de agosto de 2010
TESTAMENTO
quero deixar-te essas noites
nos meus bolsos escondidas
são o resumo das minhas
sete mil e tantas vidas
também vou deixar-te as rimas
dos versos que não escrevi
anotações de viagens
por lugares que nunca vi
deixo-te trajes de gala
aqueles que nunca usei
meu chapéu de aba puída
coroa de quando fui rei
minhas mentiras te deixo
pra que não precises mentir
a verdade vai comigo
a ninguém interessa ouvir
também deixo-te a cadeira
ainda ontem meu lugar
minhas dores jogo fora
essas não te quero deixar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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nos meus bolsos escondidas
são o resumo das minhas
sete mil e tantas vidas
também vou deixar-te as rimas
dos versos que não escrevi
anotações de viagens
por lugares que nunca vi
deixo-te trajes de gala
aqueles que nunca usei
meu chapéu de aba puída
coroa de quando fui rei
minhas mentiras te deixo
pra que não precises mentir
a verdade vai comigo
a ninguém interessa ouvir
também deixo-te a cadeira
ainda ontem meu lugar
minhas dores jogo fora
essas não te quero deixar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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