“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

sábado, 3 de setembro de 2011

CANÇÂO DA CASA TRISTE

minha casa é triste mas tão triste
que até a tristeza passa longe dela
além de mim e dos meus livros
só o vazio habita nela
a moça que na casa havia
fugiu levando a janela
o currupião que cantava
de tédio se estrangulou
meu resto de alegria
a chuva brava levou

minha casa é pobre mas tão pobre
que são francisco de assis
ao ver tamanha pobreza
olhou seu roto burel
achou que era traje de riqueza
e pediu perdão a deus do céu

minha casa é pequena mas tão pequena
que a pequenez viu-se grande
bem maior do que um gigante
e sentiu tamanha agonia
ao perceber que na minha casa
sua pequenez mal cabia

minha casa é triste mas tão triste
minha casa é pobre mas tão pobre
minha casa é pequena mas tão pequena
que eu nem sei mais se ela existe
porque sua pouca existência
é esta toda que me cobre
é esta que me envenena

___________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
___________________



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

2 POEMAS RELÂMPAGOS

NOVA CARTILHA

onde ivo
via
a uva
hoje ovídeo

o vídeo

___________

CARTAZ PARA O DIA DOS NAMORADOS

amor é rasgo
amor é risco
amor é sempre
o mesmo disco

____________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
___________________

sábado, 20 de agosto de 2011

SONETO DE CRISTIANE

teus olhos me falam todas as luzes
e teus passos guiam os meus caminhos
afastas o peso das minhas cruzes
com o leve roçar dos teus carinhos

e assim se eu me perco tu me conduzes
não vou no rastro dos que vão sozinhos
enfrento as balas de mil arcabuzes
se tenho teu beijo esqueço dos vinhos

se nos meus olhos havia neblina
vai-se num átimo toda cegueira
o velho que sou curva-se à menina

o mundo meu bem de vez que se dane
que sejas minha pela vida inteira
o resto se ajeita cris  -  cristiane

_________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
__________________

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

CARTA, QUASE POEMA PARA ANTÓNIA RUIVO, MINHA AMIGA

hoje
e bem hoje amiga
eu não devia escrever nada
mas falta-me o sono
palavra que tenho não vale o poema
e a voz se me vem
sai engasgada
porém acho guardados nas prateleiras
os poetas que mais gosto
passam por mim drummond e bandeira
passa a sophia
com aqueles olhos tão lindos
que por si só já eram poesia
passa a alegria
passa o vinícius
passa o o'neill
ambos imersos em bebedeiras
e passa o torga
e o quintana vem
passa a cecília
passa o gullar
tu passas e a madrugada já vem
só eu nesta vida
é que não passo meu bem

_________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
_________________


A MORTE POR ATAQUE DE DESUSO

trago no bolso de uma calça velha
num guardanapo de papel anotações
para um poema só com palavras mortas
vítimas de ataque de desuso

não sei quando e nem se vou terminar o poema
no entanto todas as madrugadas
levanto-me e vou ao cemitério dos alfarrábios
chorar lágrimas de letras por essas palavras mortas
vítimas de ataque de desuso

toda vez que choro essas palavras mortas
sinto que elas me acenam com mãos de condolências
e eu digo que sinto muito mas deixo como garantia
minha palavra  -  o poema qualquer dia sai

trago no bolso de trás de uma calça velha
num guardanapo de papel anotações
com palavras antigas que amanhã ou depois
me vão matar também e eu não vou poder fazer nada
a não ser morrer calado por ataque de desuso

_____________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
______________

segunda-feira, 25 de julho de 2011

POEMA DE CONDÃO

crias girassóis em torno da casa imaginária
imaginários também são os animais da casa
assim como imaginária é a vida por aqui
imaginário só não é o ar que respiramos

inventamos uma porção de dias felizes
mas não devemos gastá-los todos
porque amanhã no pé em que as coisas vão
por certo vamos precisar deles  - nunca se sabe
é sempre bom estocar um pouco de dias felizes

agora sim podemos caminhar de mãos dadas
pelo jardim da casa onde plantas e pássaros nos esperam
tu me emprestas um pouco do teu sorriso
com o teu sorriso sinto-me mais à vontade

pois então recomecemos a nossa história
na nossa história nada era uma vez
porque na nossa história o tempo não existe

__________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
__________________

Compartilhe o Currupião