quinta-feira, 21 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
DIES IRAE
do meu quarto todas as noites
eu ouvia meu pai gemer as dores do câncer
era um gemido comprido comprido
que parecia não acabar nunca
era um quase canto gregoriano
era um quase ofício de trevas
naqueles dias de agonia
a casa toda tinha olhos de extrema-unção
e cada móvel e cada quadro e cada objeto
era um sacerdote antigo e magro com seu breviário em latim
sempre sempre a recitar o Dies Irae
a casa toda era o próprio Juízo Final de michelangelo
quando levaram meu pai ao hospital
apenas para cumprir o exercício de morrer
toda liturgia foi embora com ele
e a casa voltou a ter seus olhos de casa
os móveis os quadros os objetos
voltaram à natureza comum de móveis quadros objetos
só os versos do Dies Irae continuaram a martelar nos meus ouvidos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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eu ouvia meu pai gemer as dores do câncer
era um gemido comprido comprido
que parecia não acabar nunca
era um quase canto gregoriano
era um quase ofício de trevas
naqueles dias de agonia
a casa toda tinha olhos de extrema-unção
e cada móvel e cada quadro e cada objeto
era um sacerdote antigo e magro com seu breviário em latim
sempre sempre a recitar o Dies Irae
a casa toda era o próprio Juízo Final de michelangelo
quando levaram meu pai ao hospital
apenas para cumprir o exercício de morrer
toda liturgia foi embora com ele
e a casa voltou a ter seus olhos de casa
os móveis os quadros os objetos
voltaram à natureza comum de móveis quadros objetos
só os versos do Dies Irae continuaram a martelar nos meus ouvidos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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PERIQUITO SEM ASAS
na contramão dos meus olhos
caminha uma mulher estupidamente bela
que jurou matar-me um dia
e disso não duvido - nunca duvidei
por isso evito sonhar quando ela está por perto
em sonho também se mata
em sonho também se morre
dependendo do azul que o sonho oferece
prefiro o horror do pesadelo
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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caminha uma mulher estupidamente bela
que jurou matar-me um dia
e disso não duvido - nunca duvidei
por isso evito sonhar quando ela está por perto
em sonho também se mata
em sonho também se morre
dependendo do azul que o sonho oferece
prefiro o horror do pesadelo
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 18 de julho de 2011
MINHA MORTE
minha morte me ama
minha morte me deseja
minha morte está sempre
a me esperar na esquina
com ares de puta
e braçadas de flores brancas
por isso não reclamo
do fel de cada dia que me dão
nem fujo do inimigo
que me quer à traição
e me oferece um sorriso de faca afiada
minha morte é meu escudo
minha morte é minha espada
minha morte é meu orixá
exu fêmea na encruzilhada
pronta pra me defender
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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minha morte me deseja
minha morte está sempre
a me esperar na esquina
com ares de puta
e braçadas de flores brancas
por isso não reclamo
do fel de cada dia que me dão
nem fujo do inimigo
que me quer à traição
e me oferece um sorriso de faca afiada
minha morte é meu escudo
minha morte é minha espada
minha morte é meu orixá
exu fêmea na encruzilhada
pronta pra me defender
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 2 de julho de 2011
BALADA MUITO ANTIGA
ai sofro de sofrer tanto
que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
ai sofro de sofrer tanto...
caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
ai sofro de sofrer tanto...
caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 25 de junho de 2011
ALEXANDRE O'NEILL, O PENITENTE
- para o próprio o'neill, com carinho
e respeito, dedico
deu-se que o poeta o'neill estava morto
não lhe deram nada em vida
mas morto no frio da morgue
estava bem quieto
como se nos mandassem a todos
à casa do caralho
era um morto qualquer
como qualquer mais um morto
mas um morto diferente
a perturbar o reino dos céus
na sua condição de morto
alexandre não estava morto
apenas pediu um cigarro
um gole mais de bebida
e disse não para os anjos
puta que me pariu
junto com seus amigos
junto com seus demónios
o poeta preferiu o inferno
júlio saraiva,
S.Paulo – Brasil
NOTA: Poema nas vozes do Animador da Palavra, eduardo roseira e José Mário Roseira, que também fez o filme
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