“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DIES IRAE

do meu quarto todas as noites
eu ouvia meu pai gemer as dores do câncer
era um gemido comprido comprido
que parecia não acabar nunca
era um quase canto gregoriano
era um quase ofício de trevas

naqueles dias de agonia
a casa toda tinha olhos de extrema-unção
e cada móvel e cada quadro e cada objeto
era um sacerdote antigo e magro com seu breviário em latim
sempre sempre a recitar o Dies Irae
a casa toda era o próprio Juízo Final de michelangelo

quando levaram meu pai ao hospital
apenas para cumprir o exercício de morrer
toda liturgia foi embora com ele
e a casa voltou a ter seus olhos de casa
os móveis os quadros os objetos
voltaram à natureza comum de móveis quadros objetos
só os versos do Dies Irae continuaram a martelar nos meus ouvidos

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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PERIQUITO SEM ASAS

na contramão dos meus olhos
caminha uma mulher estupidamente bela
que jurou matar-me um dia
e disso não duvido  -  nunca duvidei
por isso evito sonhar quando ela está por perto

em sonho também se mata
em sonho também se morre
dependendo do azul que o sonho oferece
prefiro o horror do pesadelo

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 18 de julho de 2011

MINHA MORTE

minha morte me ama
minha morte me deseja
minha morte está sempre
a me esperar na esquina
com ares de puta
e braçadas de flores brancas
por isso não reclamo
do fel de cada dia que me dão
nem fujo do inimigo
que me quer à traição
e me oferece um sorriso de faca afiada
minha morte é meu escudo
minha morte é minha espada
minha morte é meu orixá
exu fêmea na encruzilhada
pronta pra me defender

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 2 de julho de 2011

BALADA MUITO ANTIGA

ai sofro de sofrer tanto
que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai

ai sofro de sofrer tanto...

caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai

no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 25 de junho de 2011

ALEXANDRE O'NEILL, O PENITENTE



- para o próprio o'neill, com carinho
e respeito, dedico

deu-se que o poeta o'neill estava morto
não lhe deram nada em vida
mas morto no frio da morgue
estava bem quieto
como se nos mandassem a todos
à casa do caralho

era um morto qualquer
como qualquer mais um morto
mas um morto diferente
a perturbar o reino dos céus

na sua condição de morto
alexandre não estava morto
apenas pediu um cigarro
um gole mais de bebida
e disse não para os anjos

puta que me pariu
junto com seus amigos
junto com seus demónios
o poeta preferiu o inferno

júlio saraiva,
S.Paulo – Brasil

NOTA: Poema nas vozes do Animador da Palavra, eduardo roseira e José Mário Roseira, que também fez o filme

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A SEGUNDA CANÇÃO DE EXÍLIO

"Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude."

- Carlos Drummond de Andrade -

também vim ao mundo carlos para ser gauche
daí este meu jeito triste
daí esta minha sina de sempre exilado
daí este meu beber sem limite
daí este meu vestir sem cuidado

mas eu também já fui brasileiro
tive sonhos de revolução
mas minha coragem carlos
nunca passou das mesas dos bares
sórdidos que frequentei
onde fui aos poucos deixando
alguns anos da minha vida

mas cansado de tanto morrer
dei agora de esconder-me de mim
isto provavelmente carlos
deve ser o prenúncio do fim

carlos mesmo sem ter dinheiro
eu também já fui brasileiro

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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