na contramão dos meus olhos
caminha uma mulher estupidamente bela
que jurou matar-me um dia
e disso não duvido - nunca duvidei
por isso evito sonhar quando ela está por perto
em sonho também se mata
em sonho também se morre
dependendo do azul que o sonho oferece
prefiro o horror do pesadelo
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 20 de julho de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
MINHA MORTE
minha morte me ama
minha morte me deseja
minha morte está sempre
a me esperar na esquina
com ares de puta
e braçadas de flores brancas
por isso não reclamo
do fel de cada dia que me dão
nem fujo do inimigo
que me quer à traição
e me oferece um sorriso de faca afiada
minha morte é meu escudo
minha morte é minha espada
minha morte é meu orixá
exu fêmea na encruzilhada
pronta pra me defender
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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minha morte me deseja
minha morte está sempre
a me esperar na esquina
com ares de puta
e braçadas de flores brancas
por isso não reclamo
do fel de cada dia que me dão
nem fujo do inimigo
que me quer à traição
e me oferece um sorriso de faca afiada
minha morte é meu escudo
minha morte é minha espada
minha morte é meu orixá
exu fêmea na encruzilhada
pronta pra me defender
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 2 de julho de 2011
BALADA MUITO ANTIGA
ai sofro de sofrer tanto
que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
ai sofro de sofrer tanto...
caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
ai sofro de sofrer tanto...
caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 25 de junho de 2011
ALEXANDRE O'NEILL, O PENITENTE
- para o próprio o'neill, com carinho
e respeito, dedico
deu-se que o poeta o'neill estava morto
não lhe deram nada em vida
mas morto no frio da morgue
estava bem quieto
como se nos mandassem a todos
à casa do caralho
era um morto qualquer
como qualquer mais um morto
mas um morto diferente
a perturbar o reino dos céus
na sua condição de morto
alexandre não estava morto
apenas pediu um cigarro
um gole mais de bebida
e disse não para os anjos
puta que me pariu
junto com seus amigos
junto com seus demónios
o poeta preferiu o inferno
júlio saraiva,
S.Paulo – Brasil
NOTA: Poema nas vozes do Animador da Palavra, eduardo roseira e José Mário Roseira, que também fez o filme
quinta-feira, 16 de junho de 2011
A SEGUNDA CANÇÃO DE EXÍLIO
"Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude."
- Carlos Drummond de Andrade -
também vim ao mundo carlos para ser gauche
daí este meu jeito triste
daí esta minha sina de sempre exilado
daí este meu beber sem limite
daí este meu vestir sem cuidado
mas eu também já fui brasileiro
tive sonhos de revolução
mas minha coragem carlos
nunca passou das mesas dos bares
sórdidos que frequentei
onde fui aos poucos deixando
alguns anos da minha vida
mas cansado de tanto morrer
dei agora de esconder-me de mim
isto provavelmente carlos
deve ser o prenúncio do fim
carlos mesmo sem ter dinheiro
eu também já fui brasileiro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude."
- Carlos Drummond de Andrade -
também vim ao mundo carlos para ser gauche
daí este meu jeito triste
daí esta minha sina de sempre exilado
daí este meu beber sem limite
daí este meu vestir sem cuidado
mas eu também já fui brasileiro
tive sonhos de revolução
mas minha coragem carlos
nunca passou das mesas dos bares
sórdidos que frequentei
onde fui aos poucos deixando
alguns anos da minha vida
mas cansado de tanto morrer
dei agora de esconder-me de mim
isto provavelmente carlos
deve ser o prenúncio do fim
carlos mesmo sem ter dinheiro
eu também já fui brasileiro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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CANÇÃO PARA ADÉLIA PRADO
Adélia, empresta-me um pouco
Teus olhos muito vivos
E teus cabelos brancos desgrenhados
Pra que eu me lave todo
Da sujeira dos meus pecados.
Adélia, empresta-me um poema,
Que eu aqui me vou tão velho.
Empresta-me um pouco da tua igreja,
Do contrário no céu eu não entro.
Dá-me tuas mãos, Adélia,
Cheirando a verso e coentro.
Dá-me um toque de sinos
E tua pureza de anjo.
Dá-me um dedo de poesia
Depois, por mim mesmo, me arranjo.
Empresta-me o fogo doido,
Que arranca o pecado do mundo.
Empresta-me teus santos altares
Pra que eu volte à meninice,
Quando ainda eu cria nos santos.
(Só não briga comigo não, Dona Doida,
Que a vida não me dá mais encantos.
Não demora me vai em segundos,
Náufraga em meu mar de prantos.)
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Teus olhos muito vivos
E teus cabelos brancos desgrenhados
Pra que eu me lave todo
Da sujeira dos meus pecados.
Adélia, empresta-me um poema,
Que eu aqui me vou tão velho.
Empresta-me um pouco da tua igreja,
Do contrário no céu eu não entro.
Dá-me tuas mãos, Adélia,
Cheirando a verso e coentro.
Dá-me um toque de sinos
E tua pureza de anjo.
Dá-me um dedo de poesia
Depois, por mim mesmo, me arranjo.
Empresta-me o fogo doido,
Que arranca o pecado do mundo.
Empresta-me teus santos altares
Pra que eu volte à meninice,
Quando ainda eu cria nos santos.
(Só não briga comigo não, Dona Doida,
Que a vida não me dá mais encantos.
Não demora me vai em segundos,
Náufraga em meu mar de prantos.)
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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FATAL
Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperando que ganhem indecisão.E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
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Adélia Prado,
Divinópolis, Minas Gerais, Brasil
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impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperando que ganhem indecisão.E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
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Adélia Prado,
Divinópolis, Minas Gerais, Brasil
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