ai sofro de sofrer tanto
que até o sofrer me distrai
meu riso vem do meu pranto
soluço vira acalanto
silêncio vira estribilho
tristeza é mulher que me atrai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
ai sofro de sofrer tanto...
caminho que nunca trilho
dor que finge ir mas não vai
parto não deixo rastilho
minha sombra nunca me trai
não maldigo o desencanto
não rezo não tenho santo
se o dedo aperta o gatilho
corpo tomba sombra não cai
no fundo sou sempre o filho
na noite à procura do pai
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 2 de julho de 2011
sábado, 25 de junho de 2011
ALEXANDRE O'NEILL, O PENITENTE
- para o próprio o'neill, com carinho
e respeito, dedico
deu-se que o poeta o'neill estava morto
não lhe deram nada em vida
mas morto no frio da morgue
estava bem quieto
como se nos mandassem a todos
à casa do caralho
era um morto qualquer
como qualquer mais um morto
mas um morto diferente
a perturbar o reino dos céus
na sua condição de morto
alexandre não estava morto
apenas pediu um cigarro
um gole mais de bebida
e disse não para os anjos
puta que me pariu
junto com seus amigos
junto com seus demónios
o poeta preferiu o inferno
júlio saraiva,
S.Paulo – Brasil
NOTA: Poema nas vozes do Animador da Palavra, eduardo roseira e José Mário Roseira, que também fez o filme
quinta-feira, 16 de junho de 2011
A SEGUNDA CANÇÃO DE EXÍLIO
"Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude."
- Carlos Drummond de Andrade -
também vim ao mundo carlos para ser gauche
daí este meu jeito triste
daí esta minha sina de sempre exilado
daí este meu beber sem limite
daí este meu vestir sem cuidado
mas eu também já fui brasileiro
tive sonhos de revolução
mas minha coragem carlos
nunca passou das mesas dos bares
sórdidos que frequentei
onde fui aos poucos deixando
alguns anos da minha vida
mas cansado de tanto morrer
dei agora de esconder-me de mim
isto provavelmente carlos
deve ser o prenúncio do fim
carlos mesmo sem ter dinheiro
eu também já fui brasileiro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude."
- Carlos Drummond de Andrade -
também vim ao mundo carlos para ser gauche
daí este meu jeito triste
daí esta minha sina de sempre exilado
daí este meu beber sem limite
daí este meu vestir sem cuidado
mas eu também já fui brasileiro
tive sonhos de revolução
mas minha coragem carlos
nunca passou das mesas dos bares
sórdidos que frequentei
onde fui aos poucos deixando
alguns anos da minha vida
mas cansado de tanto morrer
dei agora de esconder-me de mim
isto provavelmente carlos
deve ser o prenúncio do fim
carlos mesmo sem ter dinheiro
eu também já fui brasileiro
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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CANÇÃO PARA ADÉLIA PRADO
Adélia, empresta-me um pouco
Teus olhos muito vivos
E teus cabelos brancos desgrenhados
Pra que eu me lave todo
Da sujeira dos meus pecados.
Adélia, empresta-me um poema,
Que eu aqui me vou tão velho.
Empresta-me um pouco da tua igreja,
Do contrário no céu eu não entro.
Dá-me tuas mãos, Adélia,
Cheirando a verso e coentro.
Dá-me um toque de sinos
E tua pureza de anjo.
Dá-me um dedo de poesia
Depois, por mim mesmo, me arranjo.
Empresta-me o fogo doido,
Que arranca o pecado do mundo.
Empresta-me teus santos altares
Pra que eu volte à meninice,
Quando ainda eu cria nos santos.
(Só não briga comigo não, Dona Doida,
Que a vida não me dá mais encantos.
Não demora me vai em segundos,
Náufraga em meu mar de prantos.)
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Teus olhos muito vivos
E teus cabelos brancos desgrenhados
Pra que eu me lave todo
Da sujeira dos meus pecados.
Adélia, empresta-me um poema,
Que eu aqui me vou tão velho.
Empresta-me um pouco da tua igreja,
Do contrário no céu eu não entro.
Dá-me tuas mãos, Adélia,
Cheirando a verso e coentro.
Dá-me um toque de sinos
E tua pureza de anjo.
Dá-me um dedo de poesia
Depois, por mim mesmo, me arranjo.
Empresta-me o fogo doido,
Que arranca o pecado do mundo.
Empresta-me teus santos altares
Pra que eu volte à meninice,
Quando ainda eu cria nos santos.
(Só não briga comigo não, Dona Doida,
Que a vida não me dá mais encantos.
Não demora me vai em segundos,
Náufraga em meu mar de prantos.)
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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FATAL
Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperando que ganhem indecisão.E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
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Adélia Prado,
Divinópolis, Minas Gerais, Brasil
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impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperando que ganhem indecisão.E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
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Adélia Prado,
Divinópolis, Minas Gerais, Brasil
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MEU VERSO
"Meu verso é minha cachaça."
- Carlos Drummond de Andrade -
meu verso é capim seco
não há chuva que o console
meu verso brota do esterco
eu o bebo de um só gole
meu verso é feito de urânio
meu verso é feito de urina
meu verso é feito de esperma
meu verso é porrada no crânio
nunca sei onde começa
nunca sei onde termina
meu é de pouco riso
meu verso é melancólico
às vezes pode ser lírico
mas quase sempre etílico
de alto teor alcoólico
meu verso é alma penada
a vagar pelo cemitério
cantiga desafinada
meu verso é um caso sério
meu verso é minha mentira
e assim vai gravando em vídeo
queira ou não queira a lira
imagens do meu suicídio
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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- Carlos Drummond de Andrade -
meu verso é capim seco
não há chuva que o console
meu verso brota do esterco
eu o bebo de um só gole
meu verso é feito de urânio
meu verso é feito de urina
meu verso é feito de esperma
meu verso é porrada no crânio
nunca sei onde começa
nunca sei onde termina
meu é de pouco riso
meu verso é melancólico
às vezes pode ser lírico
mas quase sempre etílico
de alto teor alcoólico
meu verso é alma penada
a vagar pelo cemitério
cantiga desafinada
meu verso é um caso sério
meu verso é minha mentira
e assim vai gravando em vídeo
queira ou não queira a lira
imagens do meu suicídio
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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SONETO AUTOBIOGRÁFICO
dentro de mim mora uma tempestade
e dela não pretendo nunca abrir mão
no meu rosto as marcas da antiguidade
na falta de um sim esculpi o meu não
se sou retrato de um caso perdido
é sinal que nunca fugi da luta
derrotado não me dou por vencido
mesmo sendo um grande filho da puta
trago mortes sem fim na bagagem
lançando dados não creio na sorte
vou chutando as pedras do meu caminho
estou pronto pra qualquer viagem
e pouco se me dá se sul ou norte
pois tenho asas sem ser passarinho
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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e dela não pretendo nunca abrir mão
no meu rosto as marcas da antiguidade
na falta de um sim esculpi o meu não
se sou retrato de um caso perdido
é sinal que nunca fugi da luta
derrotado não me dou por vencido
mesmo sendo um grande filho da puta
trago mortes sem fim na bagagem
lançando dados não creio na sorte
vou chutando as pedras do meu caminho
estou pronto pra qualquer viagem
e pouco se me dá se sul ou norte
pois tenho asas sem ser passarinho
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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