“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

PRIMEIRA CANÇÃO DE EXÍLIO

Para Estrela Leminski e Téo Ruiz

muito me choca essa coisa
de os poetas morrerem tão cedo
e não é de amor ou tuberculose
mas de overdose da puta desta vida
por isso não gosto dos poemas de amor
evito escreve-los até pra minha amada
quando dorme
por isso vivo quebrando meu pé
ora um ora outro
já não enxergo mais direito
ando na contramão do meu sonho
vou aos comícios de chinelos
fui parar na misericórdia duas vezes
porque não tinha dinheiro pra pagar lugar melhor
não ter dinheiro pra mim é estado de espírito
pra compensar a sopa aguada servida na misericórdia
havia os olhos azuis da enfermeira
que não quis fazer um filho comigo
e não foi falta de insistir
agora olho a rua onde moro
e sinto saudade de mim

:meu tempo é um retrato breve
pregado numa parede qualquer

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 12 de junho de 2011

DEBUTANTE

e
toda canção
era
um sonho
de valsa

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 8 de junho de 2011

POEMA ORIENTAL

mergulhavas nas águas
daquele lago
de vidro
entre carpas douradas

quando te erguias
a fina seda
do vento
protegia
a tua nudez

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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a samambaia comia as vigas do teto
mamãe jogava cartas na sala
a banheira
transformada em canteiro
não tirava os olhos de mim
lembrei do teu corpo
engasguei com espuma
e afoguei a ideia de fazer um poema

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 19 de maio de 2011

CANTOCHÃO

Ou
vós não percebestes
que os caminhos também
envelheceram?

Mas,
se não tiverdes pressa,
podereis escutar o
canto liso,
contido no breviário
das águas,
que, ao ocaso, os
barcos entoam
de memória.

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 17 de maio de 2011

ORAÇÃO PARA NÃO ESQUECER VICTOR JARA

se não me cortarem a voz juro dizer algumas palavras
se não me cortarem a voz juro dizer algumas
se não me cortarem a voz juro dizer
se não me cortarem a voz juro
se não me cortarem a voz
se não me cortarem a
se não me cortarem
se não me
se não
se

etc... etc...

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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AZULEJO

crio um azulejo
para dar cor ao meu poema
um azulejo qualquer
e o poema me vem exausto
como uma lâmpada que cansou de sua luz

crio um azulejo
um qualquer azulejo
que tenha a humildade clara dos teus olhos

crio um azulejo
um qualquer azulejo
que crie um azul-infinito
como o azul do teu beijo

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júlio

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