o espelho
diz que o meu rosto
está com prazo
de validade vencido
se o espelho
diz
dito está
e não se discute
guardo
os meus dias azuis
numa caixa
de sapatos como se fos-
sem fotografias tiradas
num velho
estúdio de bairro
acontece
que os dias azuis
estão amarelados
percebo
que tenho vocação
para a velhice
resignado
saio a percorrer
antiquários
para saber quanto dão
por um rosto
em bom estado e quase puro
(o espelho deixo como garantia)
13-04-11
___________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
DESPEJO
"É uma ordem superior..."
- Do samba Despejo na Favela, de Adoniran Barbosa -
fogão fogareiro
geladeira colchão
papagaio
gaiola galinha
cachorro criança
madeira no chão
foto de casamento
lembrança de aparecida
dia santo folhinha
prato panela
penico
piolho piorra
madeira no chão
um poster do time
uma faca sem crime
a ferrugem nos olhos
uma rosa de pano
um maço de velas
madeira no chão
uma lata um luto
uma lua de lama
relógio parado
carrinho de mão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira
no
chão
madeira madeira
conflito confronto
comando comício
polícia polícia
madeira madeira
madeira caixote
caixote caixão
um rosário uma reza
vinte salve-rainhas
salve-se-quem-puder
um tiro cem tiros
cinco vidas perdidas
um soluço um silêncio
cinco corpos no chão
chão
_______________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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- Do samba Despejo na Favela, de Adoniran Barbosa -
fogão fogareiro
geladeira colchão
papagaio
gaiola galinha
cachorro criança
madeira no chão
foto de casamento
lembrança de aparecida
dia santo folhinha
prato panela
penico
piolho piorra
madeira no chão
um poster do time
uma faca sem crime
a ferrugem nos olhos
uma rosa de pano
um maço de velas
madeira no chão
uma lata um luto
uma lua de lama
relógio parado
carrinho de mão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira no chão
madeira
no
chão
madeira madeira
conflito confronto
comando comício
polícia polícia
madeira madeira
madeira caixote
caixote caixão
um rosário uma reza
vinte salve-rainhas
salve-se-quem-puder
um tiro cem tiros
cinco vidas perdidas
um soluço um silêncio
cinco corpos no chão
chão
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
BOCAGE DO BIXIGA
saudades antigas moram comigo
não sabes o saco que é senti-las
ferem-me os pés também o umbigo
não perdoam nem minhas axilas
vais de mojito vou de pinga pura
fígado revira cabeça explode
deus-nos-acuda já não nos acode
puta-que-pariu! como que se cura
esta dor-de-corno que me põe tão mal?
nanda que sempre me quebrava o galho
tornou-se budista foi para o nepal
ana se casou com leonel de tal
cris foi morar na casa do caralho
quem disse que saudade não tem plural?
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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não sabes o saco que é senti-las
ferem-me os pés também o umbigo
não perdoam nem minhas axilas
vais de mojito vou de pinga pura
fígado revira cabeça explode
deus-nos-acuda já não nos acode
puta-que-pariu! como que se cura
esta dor-de-corno que me põe tão mal?
nanda que sempre me quebrava o galho
tornou-se budista foi para o nepal
ana se casou com leonel de tal
cris foi morar na casa do caralho
quem disse que saudade não tem plural?
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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o olho triste do boto
deu um salto rosa-choque
a chuva se desmanchou em sombrinhas
a tarde vestiu seu melhor sorriso de noiva
a se arcoirisou ao leste do meu nariz
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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deu um salto rosa-choque
a chuva se desmanchou em sombrinhas
a tarde vestiu seu melhor sorriso de noiva
a se arcoirisou ao leste do meu nariz
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 2 de abril de 2011
ALGUNS POEMAS DE ROSANGELA BORGES (*)
1.
o olhar verde
daquela menina
despertou em mim
o medo do holocausto
2.
um pássaro
voa
acima dos prédios
ele é todo liberdade
eu não
- ando presa no amor
3.
sapatos na vitrine
calçam
meus sonhos
4.
lágrimas de ácido desmancham
aquela boneca da Estrela
destruída dentro de mim
5.
a saudade inunda
o anoitecer da tua bunda
6.
acordou às cinco. às seis rezou no parque. às dez
enfrentou fila no banco. conformada, voltou ao apar-
tamento, conferindo o dinheiro. quieta, meteu-se em
tarefas domésticas. foi aí que se lembrou de Teresa
de Ávila - a doutora da Igreja, atormentada em suas
reflexões místicas: "Deus está presente até nas pa-
nelas..."
nas panela, ela disse consigo enquanto engolia o almoço
de quiabo com carne.
"Deus está presente até nas panelas..."
tardezinha, escutou confissões atormentadas, deu conse-
lhos. profanou. sentiu vontade de rezar, como de manhã.
mas não voltou ao velho Livro de Horas, cheio de culpas
e arrependimentos, que jazia sobre o criado-mudo.
quis rezar, sim. por isso, foi à estante e apanhou Garcia
Márquez, o seu anjo Gabriel. bebeu frases, imagens, sen-
tiu comichões na alma e compreendeu pela primeira vez a
rigidez da vida extramuros.
_____________________________________
Rosangela Borges,
São Paulo, Brasil, é antropóloga, jornalista e es-
critora. Publicou os livros Axé, Madona Achiropi-
ta - A Presença dos Cultos Afrobrasileiros nas Ce-
lebraçõesCatólicas na Igreja Nossa Senhora Achiropi-
ta (disssertação de mestrado em Ciências da Religião);
Quem Quer Teclar Comigo - Adolescendo na Inter-
net (novela infanto-juvenil ) e O Guardião dos Ven-
tos (poemas). Rosangela vive atualmente em Portugal,
fazendo pós-doutorado na Universidade de Coimbra.
o olhar verde
daquela menina
despertou em mim
o medo do holocausto
2.
um pássaro
voa
acima dos prédios
ele é todo liberdade
eu não
- ando presa no amor
3.
sapatos na vitrine
calçam
meus sonhos
4.
lágrimas de ácido desmancham
aquela boneca da Estrela
destruída dentro de mim
5.
a saudade inunda
o anoitecer da tua bunda
6.
acordou às cinco. às seis rezou no parque. às dez
enfrentou fila no banco. conformada, voltou ao apar-
tamento, conferindo o dinheiro. quieta, meteu-se em
tarefas domésticas. foi aí que se lembrou de Teresa
de Ávila - a doutora da Igreja, atormentada em suas
reflexões místicas: "Deus está presente até nas pa-
nelas..."
nas panela, ela disse consigo enquanto engolia o almoço
de quiabo com carne.
"Deus está presente até nas panelas..."
tardezinha, escutou confissões atormentadas, deu conse-
lhos. profanou. sentiu vontade de rezar, como de manhã.
mas não voltou ao velho Livro de Horas, cheio de culpas
e arrependimentos, que jazia sobre o criado-mudo.
quis rezar, sim. por isso, foi à estante e apanhou Garcia
Márquez, o seu anjo Gabriel. bebeu frases, imagens, sen-
tiu comichões na alma e compreendeu pela primeira vez a
rigidez da vida extramuros.
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Rosangela Borges,
São Paulo, Brasil, é antropóloga, jornalista e es-
critora. Publicou os livros Axé, Madona Achiropi-
ta - A Presença dos Cultos Afrobrasileiros nas Ce-
lebraçõesCatólicas na Igreja Nossa Senhora Achiropi-
ta (disssertação de mestrado em Ciências da Religião);
Quem Quer Teclar Comigo - Adolescendo na Inter-
net (novela infanto-juvenil ) e O Guardião dos Ven-
tos (poemas). Rosangela vive atualmente em Portugal,
fazendo pós-doutorado na Universidade de Coimbra.
sábado, 26 de março de 2011
BALADA DE KARLA MARIA
não é o sol da hora
do sol do meio-dia
é o sol que me devora
e que me faz poesia
é o sol do meu querer
é o sol do não-queria
é o sol que me adivinha
teu sol karla maria
é o sol do vaticano
que o papa nem sabia
é o sol das seis da tarde
quando bate a ave-maria
é o sol do meu querer
quando na tábua do querer
querer não mais se lia
é a pedra de drummond
que tinha ou havia
é o sol dentro do sol
teu sol karla maria
é a menina da janela
fazendo estrepolia
não sendo mais donzela
fez enganar o dia
me ensinando amar
quando amar eu não sabia
e a me tomar louco
quando em louco
eu todo me perdia
fez o meu ir-não-ir
quando eu não mais podia
mas sem poder enfim
me escondi de mim
em teu sol karla maria
_________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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do sol do meio-dia
é o sol que me devora
e que me faz poesia
é o sol do meu querer
é o sol do não-queria
é o sol que me adivinha
teu sol karla maria
é o sol do vaticano
que o papa nem sabia
é o sol das seis da tarde
quando bate a ave-maria
é o sol do meu querer
quando na tábua do querer
querer não mais se lia
é a pedra de drummond
que tinha ou havia
é o sol dentro do sol
teu sol karla maria
é a menina da janela
fazendo estrepolia
não sendo mais donzela
fez enganar o dia
me ensinando amar
quando amar eu não sabia
e a me tomar louco
quando em louco
eu todo me perdia
fez o meu ir-não-ir
quando eu não mais podia
mas sem poder enfim
me escondi de mim
em teu sol karla maria
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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MODINHA OU NO CAMINHO DE DRUMMOND
Para Lucinha e Geraldo
eu queimei o tempo
como quem brinca de roda
como quem atira pedras
no telhado do vizinho
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
astronauta sem vocação
fui procurar são jorge
só encontrei o dragão
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
num baile de debutantes
mas antes do fim do baile
a dama desencantou
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
quando todo mundo é poeta
pensava um sorriso de moça
e a poesia me vinha no ar
eu fui poeta aos vinte anos
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
eu fui e fiz tanta coisa meu deus
que hoje me dá pena lembrar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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eu queimei o tempo
como quem brinca de roda
como quem atira pedras
no telhado do vizinho
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
astronauta sem vocação
fui procurar são jorge
só encontrei o dragão
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
num baile de debutantes
mas antes do fim do baile
a dama desencantou
eu dancei com a dama de paus
eu fui poeta aos vinte anos
quando todo mundo é poeta
pensava um sorriso de moça
e a poesia me vinha no ar
eu fui poeta aos vinte anos
eu queimei o tempo
eu me afoguei na lua
eu dancei com a dama de paus
eu fui e fiz tanta coisa meu deus
que hoje me dá pena lembrar
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