teu olho nu
ilude o poema
(iludes as palavras
:estrelas presas
na lente do telescópio
que não tens)
navegas
por turbulentos mares
de vírgulas
exclamações te ufanam
interrogações te protegem
como um exército
armado de dúvidas brancas
que importa
a hora
no relógio
do antigo mosteiro
se dentro
deste teu olho nu
o tempo deixou
de existir?
(que importa o tempo?)
a sarjeta descobre-te
a sarjeta deseja-te
melhor assim
:olho por olho
elas por elas
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
ELEGIA PARA UM CERTO JÚLIO SARAIVA
aspiro o pó branco dos meus dias
organizo a festa para depois de amanhã
num baile de máscaras dancei com a morte
a lua cheia me salvou
minha loucura meu bem é quase santa
por isso estou sempre rezando
tenho palavras de missa na ponta da língua
enquanto deus dorme estou rezando
aspiro o pó branco dos meus dias
sou o meu pior inimigo
firo-me todos os dias com o punhal que trago nos olhos
depois vou dormir tranquilo
certo do dever cumprido
aspiro o pó branco dos meus dias
o poeta que fui aos 20 anos morreu
numa noite de mil novecentos e qualquer coisa
envenenado de soneto
nos braços de uma mulher que nunca existiu
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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organizo a festa para depois de amanhã
num baile de máscaras dancei com a morte
a lua cheia me salvou
minha loucura meu bem é quase santa
por isso estou sempre rezando
tenho palavras de missa na ponta da língua
enquanto deus dorme estou rezando
aspiro o pó branco dos meus dias
sou o meu pior inimigo
firo-me todos os dias com o punhal que trago nos olhos
depois vou dormir tranquilo
certo do dever cumprido
aspiro o pó branco dos meus dias
o poeta que fui aos 20 anos morreu
numa noite de mil novecentos e qualquer coisa
envenenado de soneto
nos braços de uma mulher que nunca existiu
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
MAIS UM TRAGO
Sentei no bar,
Bebendo o dia
Sem sabedoria.
Todas as segundas
São feitas de nada.
O recomeço insensível
Da utopia.
O vazio do copo cheio
De solução.
Bebi,
Brindei
Comigo mesma
O fracasso.
O passo infame
Para dentro da garrafa.
A agonia que não passa pelo
Gargalo e engasga na
Garganta seca de amor,
De coisas que esqueço
Naturalmente por desuso
E falta de emoção.
Toda segunda-feira
É um estrondo no ouvido,
Uma bomba implodindo.
Estilhaço num riso sem amanhã.
Escrevo algo no guardanapo.
Tomo mais um trago.
Quem vai pagar a conta
Dessa dor?
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Karla Bardanza
Rio de Janeiro, Brasil
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CRIME PERFEITO
Para Sônia
tua boneca de
louça
foi morta por
estrangulamento
no porão da casa
velha
- lembras-te?
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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tua boneca de
louça
foi morta por
estrangulamento
no porão da casa
velha
- lembras-te?
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 16 de janeiro de 2011
CONSTATAÇÃO EM PRETO & BRANCO
a chuva
apagou nosso último
retrato
os outros
já tinham sido destruídos
antes mesmo de nos
conhecermos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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apagou nosso último
retrato
os outros
já tinham sido destruídos
antes mesmo de nos
conhecermos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 15 de janeiro de 2011
VINTE ANOS DEPOIS...
vinte anos depois da minha morte
quando o pó do meu pó
já estiver desfeito
e ninguém pronunciar meu nome
uma criança que nunca soube da minha
existência se lembrará de mim
mas a lembrança será breve
como o sorriso breve
nos lábios de uma criança
que logo se cansou do brinquedo
e sendo assim logo ela esquecerá
que se lembrou de mim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quando o pó do meu pó
já estiver desfeito
e ninguém pronunciar meu nome
uma criança que nunca soube da minha
existência se lembrará de mim
mas a lembrança será breve
como o sorriso breve
nos lábios de uma criança
que logo se cansou do brinquedo
e sendo assim logo ela esquecerá
que se lembrou de mim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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ANA BOTAFOGO
pernas param no ar
como delicado par de asas
gestos constroem azuis a cada
movimento do corpo leve
fino cristal
onde tudo é voo graça encantamento
os passos de ana botafogo desenham
arcos no infinito
como se desenhassem o mundo
com as pontas dos pés
o tempo esqueceu de passar
para aplaudir a bailarina
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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como delicado par de asas
gestos constroem azuis a cada
movimento do corpo leve
fino cristal
onde tudo é voo graça encantamento
os passos de ana botafogo desenham
arcos no infinito
como se desenhassem o mundo
com as pontas dos pés
o tempo esqueceu de passar
para aplaudir a bailarina
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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