“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

sábado, 15 de janeiro de 2011

VINTE ANOS DEPOIS...

vinte anos depois da minha morte
quando o pó do meu pó
já estiver desfeito
e ninguém pronunciar meu nome
uma criança que nunca soube da minha
existência se lembrará de mim

mas a lembrança será breve
como o sorriso breve
nos lábios de uma criança
que logo se cansou do brinquedo
e sendo assim logo ela esquecerá
que se lembrou de mim

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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ANA BOTAFOGO

pernas param no ar
como delicado par de asas
gestos constroem azuis a cada
movimento do corpo leve
fino cristal
onde tudo é voo     graça     encantamento
os passos de ana botafogo desenham
arcos no infinito
como se desenhassem o mundo
com as pontas dos pés

o tempo esqueceu de passar
para aplaudir a bailarina

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

PEQUENO TRATADO DE COMÉRCIO

Trocam o santo e a senha
cortesias e louvores
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores

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Domingos da Mota,
Vila Nova de Gaia, Portugal
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AUTO-ESTIMA

Para Ricardo Soares, meu amigo - consagro

"Minha filosofia traz o pensamento vitorioso com o qual
toda outra maneira de pensar acabará por sucumbir."

- Nietzsche, O Eterno Retorno -


o poeta só fabrica o céu porque
conhece o inferno mais do que
a palma da própria mão

o poema é pomba mas pode
tornar-se bomba e explodir de
repente   isso só depende da
maneira como a flor for tratada

transformar ouro em merda não
deixa de ser uma arte preciosa
assim como imaginar o arcanjo gabriel
trepando com a virgem maria no
momento da anunciação

felizmente não tenho ninguém a rezar por mim
esqueci meu credo em velhos confessionários
o poeta jamais será um pecador
:não comete pecado quem peca contra
si próprio sem no entanto trair-se

a poesia absolve o poeta da mesma
forma que o condena e mata para
torná-lo à vida no colo de uma mulher
puta ou santa pouco importa

o poeta dorme acordado para a morte
e quando pensar que escreveu seu último
poema terá concluído apenas o rascunho
do que foi sua vida sem saber que
o poema em doses lentas de palavras
já o havia destruído no exato
dia em que pensou compor seu primeiro verso

se assim não falou zaratustra
não falou porque não quis   mas
assim falei eu e está dito e falado com
o enxofre das minhas palavras

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O POETA É AQUELE BICHO...

o poeta é aquele bicho perdido
de si próprio sobrevive acuado
peca pois já nasceu arrependido
do pecado sem conhecer pecado

por tanto amar acaba desamado
e o pranto que lhe cai vem encardido
porque sempre o apanham desarmado
o que lhe torna a vida sem sentido

ao despencar nos braços da poesia
prática que requer isolamento
vira criança sem discernimento

manda a escanteio toda teoria
e põe-se a mastigar seu excremento
como se fosse a mais fina iguaria

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

OLHANDO PARA O PRÓPRIO UMBIGO

Desanimada,
Desapontada,
Olhando pro umbigo,
Esparramada no self.

Contando as ovelhinhas
Minhas de cada dia.

Lambendo o ego
Nego o eu,
E se sou eu aqui,
Quem colocou
Isso
Dentro
Isso
O corpo contra o corpo,
A pele arreganhada,
O nada tem gosto,
(Eu) gosto
Do beijo
Pensado durante
A música da Siouxsie.
Podia ser
Podia ter
Um orgasmo agorinha
Com você
É oceano
E (des)espero.

Desapontada,
Inesperada,
Todos os adjetivos
Terminados em ada
E mais nada
E mais nada
E quase tudo
É mais
Um absurdo.

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Karla Bardanza
Rio de Janeiro, Brasil
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CHÃO SEM FUNDO

Nada muda
Nada
A porta absurda
Trancada está
E nem fechadura
Tem.

Abro a janela
E estou emparedada.
Tijolos ao redor
E nada mais.

Se estou só?
Ouço apenas
A minha voz:
Eco sem vibração.

Comida fria,
Apenas água na geladeira
E essa dor e essa febre
Ardendo tanto a minha
Língua, íngua.
Não consigo me mover.

Pelo lado de dentro
Te reflito: aflito espelho
Que não me olha nos
Olhos.

A gaveta aberta
Está atulhada de você,
De palavras que morrem
E nunca morreram,
De desespero,
De vontades,
De tudo
Que
Cai
De
Mim
Quando
Não consigo
Fechar os braços
E te segurar
Dentro do meu corpo.

Afundo no
Sofá rasgado,
Nas almofadas
Sem cor, na casa
Sem paz.
Afundo no chão
Sem fundo,
Afundo
No amor.


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Karla Bardanza
Rio de Janeiro, Brasil
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