“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

PEQUENO TRATADO DE COMÉRCIO

Trocam o santo e a senha
cortesias e louvores
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores

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Domingos da Mota,
Vila Nova de Gaia, Portugal
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AUTO-ESTIMA

Para Ricardo Soares, meu amigo - consagro

"Minha filosofia traz o pensamento vitorioso com o qual
toda outra maneira de pensar acabará por sucumbir."

- Nietzsche, O Eterno Retorno -


o poeta só fabrica o céu porque
conhece o inferno mais do que
a palma da própria mão

o poema é pomba mas pode
tornar-se bomba e explodir de
repente   isso só depende da
maneira como a flor for tratada

transformar ouro em merda não
deixa de ser uma arte preciosa
assim como imaginar o arcanjo gabriel
trepando com a virgem maria no
momento da anunciação

felizmente não tenho ninguém a rezar por mim
esqueci meu credo em velhos confessionários
o poeta jamais será um pecador
:não comete pecado quem peca contra
si próprio sem no entanto trair-se

a poesia absolve o poeta da mesma
forma que o condena e mata para
torná-lo à vida no colo de uma mulher
puta ou santa pouco importa

o poeta dorme acordado para a morte
e quando pensar que escreveu seu último
poema terá concluído apenas o rascunho
do que foi sua vida sem saber que
o poema em doses lentas de palavras
já o havia destruído no exato
dia em que pensou compor seu primeiro verso

se assim não falou zaratustra
não falou porque não quis   mas
assim falei eu e está dito e falado com
o enxofre das minhas palavras

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O POETA É AQUELE BICHO...

o poeta é aquele bicho perdido
de si próprio sobrevive acuado
peca pois já nasceu arrependido
do pecado sem conhecer pecado

por tanto amar acaba desamado
e o pranto que lhe cai vem encardido
porque sempre o apanham desarmado
o que lhe torna a vida sem sentido

ao despencar nos braços da poesia
prática que requer isolamento
vira criança sem discernimento

manda a escanteio toda teoria
e põe-se a mastigar seu excremento
como se fosse a mais fina iguaria

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

OLHANDO PARA O PRÓPRIO UMBIGO

Desanimada,
Desapontada,
Olhando pro umbigo,
Esparramada no self.

Contando as ovelhinhas
Minhas de cada dia.

Lambendo o ego
Nego o eu,
E se sou eu aqui,
Quem colocou
Isso
Dentro
Isso
O corpo contra o corpo,
A pele arreganhada,
O nada tem gosto,
(Eu) gosto
Do beijo
Pensado durante
A música da Siouxsie.
Podia ser
Podia ter
Um orgasmo agorinha
Com você
É oceano
E (des)espero.

Desapontada,
Inesperada,
Todos os adjetivos
Terminados em ada
E mais nada
E mais nada
E quase tudo
É mais
Um absurdo.

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Karla Bardanza
Rio de Janeiro, Brasil
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CHÃO SEM FUNDO

Nada muda
Nada
A porta absurda
Trancada está
E nem fechadura
Tem.

Abro a janela
E estou emparedada.
Tijolos ao redor
E nada mais.

Se estou só?
Ouço apenas
A minha voz:
Eco sem vibração.

Comida fria,
Apenas água na geladeira
E essa dor e essa febre
Ardendo tanto a minha
Língua, íngua.
Não consigo me mover.

Pelo lado de dentro
Te reflito: aflito espelho
Que não me olha nos
Olhos.

A gaveta aberta
Está atulhada de você,
De palavras que morrem
E nunca morreram,
De desespero,
De vontades,
De tudo
Que
Cai
De
Mim
Quando
Não consigo
Fechar os braços
E te segurar
Dentro do meu corpo.

Afundo no
Sofá rasgado,
Nas almofadas
Sem cor, na casa
Sem paz.
Afundo no chão
Sem fundo,
Afundo
No amor.


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Karla Bardanza
Rio de Janeiro, Brasil
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NA MORTE DA MINHA MÃE

"Fosse eu Rei do Mundo,
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre
junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino
feito grão de milho."

- Carlos Drummond de Andrade -


não agonizavas - dormias
dormias profundo como gostavas
segurei tua mão
num gesto inútil tentei abrir teus olhos
ainda respiravas
no entanto dormias
chamei teu nome
não me escutavas
eu que nunca cri pedi tanto que um anjo
surgisse à minha frente
em lugar do anjo apareceu um rapaz de branco
bateu de leve no meu ombro
e disse que era questão de horas
poucas horas...
(e se eu parasse todos os relógios do mundo?)
desci para fumar um cigarro
repeti comigo
:questão de horas
poucas horas...
não derramei uma só lágrima
porque os patifes não choram
no bar em frente ao hospital
pedi uma bebida forte
coisa que a mãe não gostava
gosto que me persegue desde a mocidade
:questão de horas
poucas horas...
tomei a bebida num gole só
lembrei coisas da minha infância tão longe
de repente eu era menino de novo
ruivo e sardento
malcriado briguento
as expulsões dos colégios
a invasão à clausura dos monges
:questão de horas
poucas horas...
voltei-me homem outra vez
olhei a rua
a pressa dos carros e das gentes a pé
e aquele rosto de cera dentro dos meus olhos
e aqueles olhos que em vão tentei abrir
não derramei uma só lágrima
porque os patifes não choram
quando tornei à sala
já não era mais questão de horas
implorei novamente um anjo
mas o anjo não veio
naquela hora eu queria ser gente
e não o menino ruivo e sardento
agora para sempre desamparado

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Madrugada de 11-01-2011,
primeiro aniversário da mor-
te da minha mãe.

SONETO DE KARLA

sobre o poema Chão sem Fundo, de Karla Bardanza

"Não repares se a forma é apurada
Ou se a métrica foi talvez torcida
Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso  -  é a minha vida."

- Vinícius de Moraes  -

não - ó não te assustes minha amada
não temas este chão assim sem fundo
a minha mão direita espalmada
ampara-te das dores deste mundo

esquece minha vida mal-afamada
vê - nosso tempo tem um só segundo
a morte jaz num canto esparramada
e lá  fora amor brilha um sol fecundo

a tua boca maçã que envenena
mata-me num beijo assim de repente
 mordo tua carne macia e morena

gira a terra toda em volta da gente
o mar bravo se acalma se apequena
o chão dantes frio agora faz-se quente

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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