minha alma
é uma mulher viúva
que não conheceu
marido
por isto vive trancada
no quarto
a derramar
lágrimas de alfazema
pelos filhos
que não vieram
___________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
___________________
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
sábado, 8 de janeiro de 2011
UM SONETO DE AMOR
meu bem sou só um poeta de rua
construído por mais de mil fracassos
e teimoso inda sonha com a lua
prostituto de todos os abraços
e pouco sei aonde vão meus passos
basta imaginar uma mulher nua
a meninice volta e continua
eu me desato de todos os laços
se sou pervertido? é só sorte tua
e mesmo tendo esta linguagem crua
fruto de todos os meus cansaços
sempre estou voltando para os teus braços
se mau amante sou pior amigo
se é pra morrer quero morrer contigo
____________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
_____________________
construído por mais de mil fracassos
e teimoso inda sonha com a lua
prostituto de todos os abraços
e pouco sei aonde vão meus passos
basta imaginar uma mulher nua
a meninice volta e continua
eu me desato de todos os laços
se sou pervertido? é só sorte tua
e mesmo tendo esta linguagem crua
fruto de todos os meus cansaços
sempre estou voltando para os teus braços
se mau amante sou pior amigo
se é pra morrer quero morrer contigo
____________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
_____________________
sábado, 25 de dezembro de 2010
ANAMNESE
Mais que fazer
se desfazem
os anos que
por mim passam
Nem sei se levam
se trazem
o que depois
desenlaçam
________________________
Domingos da Mota,
Vila Nova de Gaia, Portugal
________________________
se desfazem
os anos que
por mim passam
Nem sei se levam
se trazem
o que depois
desenlaçam
________________________
Domingos da Mota,
Vila Nova de Gaia, Portugal
________________________
OFÍCIO DE NATAL
Da Estrela Guia não tenho notícia.
Mas sei que uma menina de 13 anos
- prenhe de um soldado -
deu à luz um menino na Praça da Sé.
(A criança morreu 15 minutos antes
da Missa do Galo.)
___________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
____________________
Mas sei que uma menina de 13 anos
- prenhe de um soldado -
deu à luz um menino na Praça da Sé.
(A criança morreu 15 minutos antes
da Missa do Galo.)
___________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
____________________
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
SEGUNDA CRÔNICA DE NATAL
"Hoje à noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."
- Vinícius de Moraes, Poema de Natal -
Meus natais nunca foram felizes. Sempre tive tudo, é verdade. Mas jamais me apeteceram as festas natalinas.
Como já disse numa crônica anterior, nessas ocasiões eu me trancava no quarto. E era um deus-nos-acuda pra me tirarem de lá. Não queria comer, não queria presentes, não queria nada. Queria ficar a sós comigo mesmo. E eu tinha apenas seis anos.
Aos sete, por causa desse meu jeito, minha mãe levou-me ao psicanalista. Mas eu não falava com ele. Na mesa do consultório, eu improvisava um campo de futebol de botão e o cura-loucos ficava apenas me olhando, enquanto eu imaginava um estádio lotado e os craques do meu tempo fazendo mágica com a bola nos pés.
Quando fiz dezoito anos, respirei aliviado. Não tinha mais necessidade de ficar em casa, olhando a mesa farta de comida. É verdade que bem antes da maioridade eu não tinha mais o hábito de ficar em casa, já demonstrando um certo gosto pelo álcool. Foram dois anos interno entre os beneditinos. Quando saí, descontei tudo. Sempre fui movido a exageros. Até no exercício de amar. Hoje entendo porque sofro tanto.
Jornalista, escolheram-me para fazer uma reportagem de natal numa favela. Vibrei com a pauta.
Antes da meia-noite, lá fui eu, acompanhado do repórter-fotográfico Tarcísio Mota, meu fiel companheiro de andanças por este mundo-de meu-deus.
Foi na favela Ordem e Progresso, em Vila Prudente. A comunidade nos esperava. Havia uma mesa enorme, coberta de papel crepom, ao ar livre, o que proporcionaria aos cães do pedaço o direito de participação na festa.E eles agradeciam, abanando a cauda.
Uma senhora negra, com uma criança no colo, recebeu-me com um beijo na face. Depois, levou-me até o seu barraco e me deu um caneca com cachaça. Abriu uma garrafa de cerveja e começou a me contar sobre a rotina da favela.
A cerveja e a cachaça me foram servidas em canecas de alumínio que brilhavam. Nunca vi tanto asseio como naquele barraco humilde. Barraco humilde é redundância, né? Mas lá havia um presépio, feito de papelão. Com tudo o que há num presépio: a Virgem, o Carpinteiro,o Menino. Os pastores, os bichos. Os reis, com seus presentes: o incenso, simbolizando a divindade; o ouro, a realeza; e a mirra, a paixão anunciada. E tinha também o anjo, em cima do telhado da manjedoura, com a faixa: "Glória a Deus nas alturas." À distância havia um carro da polícia, pronto para qualquer emergência.
Quando saímos para a rua, na hora da ceia, a batucada comia solta. Algumas pessoas estavam bastante bêbadas. Mas era uma bebedeira santa e feliz. Sem confusão.Uma bebedeira de quem sofria o ano inteiro e, naquele momento, tinha um momento raro de felicidade. Por dever de ofício, eu não podia ficar bêbado, embora tivesse vontade. Uma menina me chamou de menino bonito. E acho que eu era mesmo.
Serviram frango assado, porque não havia dinheiro para o peru, farofa e muita maionese com batatas, porque entope mais depressa. Pobre adora maionese.
As crianças se contentavam com bolas de futebol de plástico e bonecas baratas, oferecidas por um empresário da região. O olhar do Menino Jesus estava no olhar de todas aquelas crianças. A pureza da Virgem e a humildade do Carpinteiro habitavam nas mulheres e nos homens. E eu, que nunca cri no Natal, senti uma coisa na minha garganta. Meu amigo fotógrafo olhou para mim e brincou:
- O repórter duro está chorando?
Não quis dar o braço a torcer e respondi que talvez fosse efeito da bebida.Mas não era.
E comecei a puxar da memória os natais antigos em família. Até constatar que ali, naquela favela, eu vivi e passei o único Natal feliz. O único - até hoje.
________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
_________________
Nascemos, imensamente."
- Vinícius de Moraes, Poema de Natal -
Meus natais nunca foram felizes. Sempre tive tudo, é verdade. Mas jamais me apeteceram as festas natalinas.
Como já disse numa crônica anterior, nessas ocasiões eu me trancava no quarto. E era um deus-nos-acuda pra me tirarem de lá. Não queria comer, não queria presentes, não queria nada. Queria ficar a sós comigo mesmo. E eu tinha apenas seis anos.
Aos sete, por causa desse meu jeito, minha mãe levou-me ao psicanalista. Mas eu não falava com ele. Na mesa do consultório, eu improvisava um campo de futebol de botão e o cura-loucos ficava apenas me olhando, enquanto eu imaginava um estádio lotado e os craques do meu tempo fazendo mágica com a bola nos pés.
Quando fiz dezoito anos, respirei aliviado. Não tinha mais necessidade de ficar em casa, olhando a mesa farta de comida. É verdade que bem antes da maioridade eu não tinha mais o hábito de ficar em casa, já demonstrando um certo gosto pelo álcool. Foram dois anos interno entre os beneditinos. Quando saí, descontei tudo. Sempre fui movido a exageros. Até no exercício de amar. Hoje entendo porque sofro tanto.
Jornalista, escolheram-me para fazer uma reportagem de natal numa favela. Vibrei com a pauta.
Antes da meia-noite, lá fui eu, acompanhado do repórter-fotográfico Tarcísio Mota, meu fiel companheiro de andanças por este mundo-de meu-deus.
Foi na favela Ordem e Progresso, em Vila Prudente. A comunidade nos esperava. Havia uma mesa enorme, coberta de papel crepom, ao ar livre, o que proporcionaria aos cães do pedaço o direito de participação na festa.E eles agradeciam, abanando a cauda.
Uma senhora negra, com uma criança no colo, recebeu-me com um beijo na face. Depois, levou-me até o seu barraco e me deu um caneca com cachaça. Abriu uma garrafa de cerveja e começou a me contar sobre a rotina da favela.
A cerveja e a cachaça me foram servidas em canecas de alumínio que brilhavam. Nunca vi tanto asseio como naquele barraco humilde. Barraco humilde é redundância, né? Mas lá havia um presépio, feito de papelão. Com tudo o que há num presépio: a Virgem, o Carpinteiro,o Menino. Os pastores, os bichos. Os reis, com seus presentes: o incenso, simbolizando a divindade; o ouro, a realeza; e a mirra, a paixão anunciada. E tinha também o anjo, em cima do telhado da manjedoura, com a faixa: "Glória a Deus nas alturas." À distância havia um carro da polícia, pronto para qualquer emergência.
Quando saímos para a rua, na hora da ceia, a batucada comia solta. Algumas pessoas estavam bastante bêbadas. Mas era uma bebedeira santa e feliz. Sem confusão.Uma bebedeira de quem sofria o ano inteiro e, naquele momento, tinha um momento raro de felicidade. Por dever de ofício, eu não podia ficar bêbado, embora tivesse vontade. Uma menina me chamou de menino bonito. E acho que eu era mesmo.
Serviram frango assado, porque não havia dinheiro para o peru, farofa e muita maionese com batatas, porque entope mais depressa. Pobre adora maionese.
As crianças se contentavam com bolas de futebol de plástico e bonecas baratas, oferecidas por um empresário da região. O olhar do Menino Jesus estava no olhar de todas aquelas crianças. A pureza da Virgem e a humildade do Carpinteiro habitavam nas mulheres e nos homens. E eu, que nunca cri no Natal, senti uma coisa na minha garganta. Meu amigo fotógrafo olhou para mim e brincou:
- O repórter duro está chorando?
Não quis dar o braço a torcer e respondi que talvez fosse efeito da bebida.Mas não era.
E comecei a puxar da memória os natais antigos em família. Até constatar que ali, naquela favela, eu vivi e passei o único Natal feliz. O único - até hoje.
________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
_________________
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
NOTURNO DA RUA MARTINIANO DE CARVALHO
um poste calado
em sua dura solidão
de poste
uma calçada ador-
mecida em seus
buracos
uma igreja fechada
sem ouvidos para
orações ou milagres
um casal em de-
lírio que se ama
no muro
um latido de cão
um carro que
passa
um homem trôpego
que sonha navios
perdidos no mar
uma lua no céu
sem nenhuma
importância
um segundo homem
andrajoso que insiste
em viver
(de bicicleta a morte
passa assobiando um
samba-canção)
______________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
______________________
em sua dura solidão
de poste
uma calçada ador-
mecida em seus
buracos
uma igreja fechada
sem ouvidos para
orações ou milagres
um casal em de-
lírio que se ama
no muro
um latido de cão
um carro que
passa
um homem trôpego
que sonha navios
perdidos no mar
uma lua no céu
sem nenhuma
importância
um segundo homem
andrajoso que insiste
em viver
(de bicicleta a morte
passa assobiando um
samba-canção)
______________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
______________________
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
IMAGEM
na surdina
o luar
masca o mar
de
madagascar
__________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
__________________
o luar
masca o mar
de
madagascar
__________________
Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
__________________
Assinar:
Postagens (Atom)
