O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate."
Jean-Paul Sartre
A munição não é apenas balas e bombas.
Disparo palavras a esmo, combato a mim mesma
numa luta insana. Todo dia, enfio a faca
no peito para sangrar poemas e sentir
as coisas que permanecem imutáveis.
O efeito é mais do que estético:
a dor é catártica, é necessária.
E quando tudo termina, olho o papel
insatisfeita, procurando a melhor metáfora,
a emoção singular das letras,
e nunca consigo ser poeta.
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Karla Bardanza,
Rio de Janeiro, Brasil
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sábado, 18 de dezembro de 2010
ADVENTO
Antecipo-me à morte anunciada
Num advento omisso de natais
É só o reflexo da minha fé cansada
De blasfémias de tantos carnavais
É farto o perú de tantos recheios
Na consoada rica e enfeitada
Lá fora uns olhos comem cheiros
que exalam da chaminé dos telhados
E há muita fome enquanto reza a missa
E o galo canta as 24 badaladas
O olhar triste da freira clarissa
A contrastar com a igreja engalanada
Não há menino num berço de palha
Mas há meus senhores...
Muita pobreza envergonhada!
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Maria Fernanda Reis Esteves,
Setúbal, Portugal
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Num advento omisso de natais
É só o reflexo da minha fé cansada
De blasfémias de tantos carnavais
É farto o perú de tantos recheios
Na consoada rica e enfeitada
Lá fora uns olhos comem cheiros
que exalam da chaminé dos telhados
E há muita fome enquanto reza a missa
E o galo canta as 24 badaladas
O olhar triste da freira clarissa
A contrastar com a igreja engalanada
Não há menino num berço de palha
Mas há meus senhores...
Muita pobreza envergonhada!
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Maria Fernanda Reis Esteves,
Setúbal, Portugal
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DIÁRIO DE BORDO
1.
nada sei de ventos
nunca viajei de navio
meus naufrágios todos
foram sempre em
terra firme
2.
este nó de marinheiro
dentro do meu peito
que a cada dia me sufoca mais
já nasceu comigo
por isso
nunca vou conseguir
desatá-lo
3.
desejo
navegar até
que os ventos
se cansem
4.
marinheiro sem mar
divirto-me
preparando tempestades
para
a última viagem
5.
agora é tarde
meu navio não tem
mais volta
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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nada sei de ventos
nunca viajei de navio
meus naufrágios todos
foram sempre em
terra firme
2.
este nó de marinheiro
dentro do meu peito
que a cada dia me sufoca mais
já nasceu comigo
por isso
nunca vou conseguir
desatá-lo
3.
desejo
navegar até
que os ventos
se cansem
4.
marinheiro sem mar
divirto-me
preparando tempestades
para
a última viagem
5.
agora é tarde
meu navio não tem
mais volta
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
QUADRAS ESCRITAS NO BAR NUM DIA DE CHUVA
cantiga do meu silêncio
fumaça do meu cigarro
augusto dos anjos disse
:beijo véspera do escarro
****
ao concluir seu moisés
michelangelo gritou: -parla!
eu metendo as mãos pelos pés
em silêncio grito: - karla!
****
meu bem a mal não me leve
meu bem não me leve a mal
que a vida é muito breve
só bebo depois do natal
****
passo horas viajando
países num velho mapa
e assim amor vou levando
a minha vida no tapa
****
upa upa upa upa
upa upa cavalinho
um fantasma na garupa
um defunto no caminho
****
beijei a moça no muro
bem-te-vi cantou que me viu
ah bem-te-vi dedo-duro
vai pra pura que te pariu!
****
de mim tenho muito orgulho
também faço muito gosto
diabo me chamo júlio
mas fui nascer em agosto
****
beija-flor discutia
com um filhote de anu
ambos queriam saber
se borboleta tem cu
****
era uma vez uma moça
que contrariou iemanjá
depois de cortar os cabelos
virou espuma do mar
****
-meu reino por uma virgem!
ingênuo o reizinho bradou
perdeu o reino e a coroa
porque nenhuma encontrou
****
pois assim foi que drummond
morreu como passarinho
mas eternizou a pedra
bem no meio do caminho
****
estas quadras pobres quadras
umas até bem sem graça
todas elas foram feitas
sob efeito da cachaça
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Júlio Saraiva,
São Paulo,Brasil
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fumaça do meu cigarro
augusto dos anjos disse
:beijo véspera do escarro
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ao concluir seu moisés
michelangelo gritou: -parla!
eu metendo as mãos pelos pés
em silêncio grito: - karla!
****
meu bem a mal não me leve
meu bem não me leve a mal
que a vida é muito breve
só bebo depois do natal
****
passo horas viajando
países num velho mapa
e assim amor vou levando
a minha vida no tapa
****
upa upa upa upa
upa upa cavalinho
um fantasma na garupa
um defunto no caminho
****
beijei a moça no muro
bem-te-vi cantou que me viu
ah bem-te-vi dedo-duro
vai pra pura que te pariu!
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de mim tenho muito orgulho
também faço muito gosto
diabo me chamo júlio
mas fui nascer em agosto
****
beija-flor discutia
com um filhote de anu
ambos queriam saber
se borboleta tem cu
****
era uma vez uma moça
que contrariou iemanjá
depois de cortar os cabelos
virou espuma do mar
****
-meu reino por uma virgem!
ingênuo o reizinho bradou
perdeu o reino e a coroa
porque nenhuma encontrou
****
pois assim foi que drummond
morreu como passarinho
mas eternizou a pedra
bem no meio do caminho
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estas quadras pobres quadras
umas até bem sem graça
todas elas foram feitas
sob efeito da cachaça
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Júlio Saraiva,
São Paulo,Brasil
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010
SONETO DA TOTAL INDIFERENÇA
despida/disposta a morte gargalha
e bate na porta do pesadelo
brilha tão cego o fio da navalha
minha loucura cultivo com zelo
com calma costuro minha mortalha
à vida não faço nenhum apelo
e assim não sendo que deus não me valha
caminho só não preciso de tê-lo
se nada me assusta nada me assombra
conto os meus dias na ponta dos dedos
a golpes de pau matei minha sombra
e foi que enterrei todos os meus medos
venha temporal meu barco não tomba
à merda se faço versos azedos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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e bate na porta do pesadelo
brilha tão cego o fio da navalha
minha loucura cultivo com zelo
com calma costuro minha mortalha
à vida não faço nenhum apelo
e assim não sendo que deus não me valha
caminho só não preciso de tê-lo
se nada me assusta nada me assombra
conto os meus dias na ponta dos dedos
a golpes de pau matei minha sombra
e foi que enterrei todos os meus medos
venha temporal meu barco não tomba
à merda se faço versos azedos
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
ARS POETICA
I
o rato
roeu
a rima
*****
II
meu desequilíbrio
me mantém
em pé
*****
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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o rato
roeu
a rima
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II
meu desequilíbrio
me mantém
em pé
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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MÁRMORE
A beleza pálida das antigas noivas mortas...
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Júlio Saraiva,
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