“O universal é o local sem paredes.” (Miguel Torga) "Escrever é um ato de liberdade." (Antônio Callado) "Embora nem todo filho da puta seja censor,todo censor é filho da puta." (Julio Saraiva)

domingo, 7 de novembro de 2010

SONETO

Por que este verbo dito no passado?
Ah, sobejos! Ah, cinzas do que fomos!
A noite a nos oferecer os gomos
O tempo sempre a nos olhar de lado.

O gesto oculto a despertar assomos
Do crime prestes a ser perpetrado;
O olhar covarde, por fim, debruçado
Sobre os retratos que hoje já não somos.

Que nos resta agora senão ver passar
A fria procissão dos nossos ossos?
O cortejo marcha, marcha sem parar...

De repente, saído dos destroços,
Vem um deus antigo, louco, a resmungar:
- Ai pecados meus! Ai pecados vossos!

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

RECREIO

na parede do quarto
a lagartixa traça centenas
de arabescos
o silêncio
- por brincadeira -
apaga
risco por risco
depois
aproveitando-se de si mesmo
corre
e desenha um enorme ponto de exclamação
no ar

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 31 de outubro de 2010

QUASE POEMA

este eu dedico para sofia costa madeira, minha amiga portuguesa


a poeta hilda hilst
cercada de seus cães
lia poemas de amor na sala
sem que ninguém a entendesse

a poeta ana cristina cesar
atirava-se do 7° andar
do apartamento onde morava
no rio de janeiro
(tinha só 31 anos
e era linda
:morreu sem saber que foi
meu amor platônico)

o poeta álvaro alves de faria e eu
bebíamos conhaque vagabundo
no bar costa do sol
na rua 7 de abril
em frente à redação do diário da noite
onde trabalhávamos
e que hoje não existe mais


era outubro de 1983

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 30 de outubro de 2010

QUADRINHA À MODA DE FERNANDO PESSOA

nasci homem marcado pelo tédio
nenhuma solidão vai dentro de mim
pois solidão meu bem não tem remédio
só sei contar os dias do meu fim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SERENATA

suavelira
lucidaflormusicalma
ternuraminhamargurada
sustenidaurora
estreladormecida
serenamusa

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

POEMA DESNECESSÁRIO

"Enquanto não dou fim a tudo
Me submeto à própria vontade de existir
Como se tudo fosse normal."

Do poema Auto-Retrato, do meu amigo Álvaro Alves de Faria,
dedicado, por acaso, a mim.



do 7° andar do prédio onde moro
penso num voo
sem paraquedas
mas morro de medo de altura
ontem avistei de novo a menina
nos seus 12 anos
andrajosa
o ventre já avolumado
uma tarde ela me pediu dinheiro
pra comprar um pão
melhor eu criar coragem e dar fim a tudo
vida de merda
país de merda

-alguém pode me emprestar
uma gilete?!

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

RAPIDINHO

p/a bel

sou a única personagem das minhas histórias
por isso nunca me atrevi a escrever um romance
meu medo maior é que vou me matar no fim

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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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