Por que este verbo dito no passado?
Ah, sobejos! Ah, cinzas do que fomos!
A noite a nos oferecer os gomos
O tempo sempre a nos olhar de lado.
O gesto oculto a despertar assomos
Do crime prestes a ser perpetrado;
O olhar covarde, por fim, debruçado
Sobre os retratos que hoje já não somos.
Que nos resta agora senão ver passar
A fria procissão dos nossos ossos?
O cortejo marcha, marcha sem parar...
De repente, saído dos destroços,
Vem um deus antigo, louco, a resmungar:
- Ai pecados meus! Ai pecados vossos!
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 7 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
RECREIO
na parede do quarto
a lagartixa traça centenas
de arabescos
o silêncio
- por brincadeira -
apaga
risco por risco
depois
aproveitando-se de si mesmo
corre
e desenha um enorme ponto de exclamação
no ar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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a lagartixa traça centenas
de arabescos
o silêncio
- por brincadeira -
apaga
risco por risco
depois
aproveitando-se de si mesmo
corre
e desenha um enorme ponto de exclamação
no ar
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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domingo, 31 de outubro de 2010
QUASE POEMA
este eu dedico para sofia costa madeira, minha amiga portuguesa
a poeta hilda hilst
cercada de seus cães
lia poemas de amor na sala
sem que ninguém a entendesse
a poeta ana cristina cesar
atirava-se do 7° andar
do apartamento onde morava
no rio de janeiro
(tinha só 31 anos
e era linda
:morreu sem saber que foi
meu amor platônico)
o poeta álvaro alves de faria e eu
bebíamos conhaque vagabundo
no bar costa do sol
na rua 7 de abril
em frente à redação do diário da noite
onde trabalhávamos
e que hoje não existe mais
era outubro de 1983
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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a poeta hilda hilst
cercada de seus cães
lia poemas de amor na sala
sem que ninguém a entendesse
a poeta ana cristina cesar
atirava-se do 7° andar
do apartamento onde morava
no rio de janeiro
(tinha só 31 anos
e era linda
:morreu sem saber que foi
meu amor platônico)
o poeta álvaro alves de faria e eu
bebíamos conhaque vagabundo
no bar costa do sol
na rua 7 de abril
em frente à redação do diário da noite
onde trabalhávamos
e que hoje não existe mais
era outubro de 1983
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sábado, 30 de outubro de 2010
QUADRINHA À MODA DE FERNANDO PESSOA
nasci homem marcado pelo tédio
nenhuma solidão vai dentro de mim
pois solidão meu bem não tem remédio
só sei contar os dias do meu fim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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nenhuma solidão vai dentro de mim
pois solidão meu bem não tem remédio
só sei contar os dias do meu fim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
SERENATA
suavelira
lucidaflormusicalma
ternuraminhamargurada
sustenidaurora
estreladormecida
serenamusa
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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lucidaflormusicalma
ternuraminhamargurada
sustenidaurora
estreladormecida
serenamusa
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
POEMA DESNECESSÁRIO
"Enquanto não dou fim a tudo
Me submeto à própria vontade de existir
Como se tudo fosse normal."
Do poema Auto-Retrato, do meu amigo Álvaro Alves de Faria,
dedicado, por acaso, a mim.
do 7° andar do prédio onde moro
penso num voo
sem paraquedas
mas morro de medo de altura
ontem avistei de novo a menina
nos seus 12 anos
andrajosa
o ventre já avolumado
uma tarde ela me pediu dinheiro
pra comprar um pão
melhor eu criar coragem e dar fim a tudo
vida de merda
país de merda
-alguém pode me emprestar
uma gilete?!
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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Me submeto à própria vontade de existir
Como se tudo fosse normal."
Do poema Auto-Retrato, do meu amigo Álvaro Alves de Faria,
dedicado, por acaso, a mim.
do 7° andar do prédio onde moro
penso num voo
sem paraquedas
mas morro de medo de altura
ontem avistei de novo a menina
nos seus 12 anos
andrajosa
o ventre já avolumado
uma tarde ela me pediu dinheiro
pra comprar um pão
melhor eu criar coragem e dar fim a tudo
vida de merda
país de merda
-alguém pode me emprestar
uma gilete?!
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010
RAPIDINHO
p/a bel
sou a única personagem das minhas histórias
por isso nunca me atrevi a escrever um romance
meu medo maior é que vou me matar no fim
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Júlio Saraiva,
São Paulo, Brasil
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sou a única personagem das minhas histórias
por isso nunca me atrevi a escrever um romance
meu medo maior é que vou me matar no fim
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Júlio Saraiva,
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